Na fundura da miséria humana

Há duas maneiras de se relacionar com os contos de O mar não sofre coisa morta, do mineiro Leonardo Paiva: dentro do universo ficcional no qual estão encerrados, ou conectando-os a assuntos externos aos seus domínios, que não se evidenciam formalmente, mas estão na cultura de suas composições.

O autor se vale de fatos que estiveram/estão em voga no noticiário para extrair, de suas entranhas, o tumor que irá converter em cerne de suas narrativas. Crime de ódio, estupro coletivo, terrorismo e onda de refugiados fazem parte do repertório dessa coletânea de estreia, que triunfa como um dos melhores lançamentos de 2016.

São apenas nove contos, porém nove contos estupendos. Paiva demonstra uma maturidade impressionante, que se destila tanto no desenvolvimento da trama quanto no manejo da linguagem. Uma prosa crua, áspera, marcada por uma violência que choca por ser perturbadoramente contida, normal.

Todos os personagens estão à deriva, mobilizados por uma sina contra a qual preferem não se insurgir. Aceitam. Peregrinam feito mortos-vivos, não sentem.

Por meio do funcionamento desses vazios engordam suas misérias, suas perversões. Seja uma família de mulheres que se entrega voluntariamente para o abuso de um grupo de detentos, seja um demente que cava um buraco no piso do quarto e sequestra uma criança. Não é fácil frequentar esses relatos, não é fácil sair deles.

A força está na forma de se contar, nas imagens que se conformam no impacto do não dito ou do fantasiado. É o caso de um trecho, no conto homônimo ao livro, em que um pai e um filho pescam cabeças hidrocéfalas no mar, no tempo de um sonho. Toda a cena tem um quê de aventuroso, de uma candura inapropriada.

A família, aliás, é onde se enquadra o retrato da corrupção. Do sexo ao luto, tudo nela se contém. Em “Lourdes”, três irmãos se reúnem para providenciar o enterro de um quarto irmão travesti, assassinado enquanto se prostituía. O texto tem início com a protagonista, a única irmã, matando galinhas e esquecendo de dar fim às vísceras. A podridão que tem de dar conta posteriormente reflete o modo com que os irmãos reagem ao morto.

Pelas características da escrita e escolhas temáticas, Paiva demonstra atrair para si detalhes da literatura de Rubem Fonseca e de Antonio Carlos Viana. O contorno das influências, porém, não diminui a força de um jovem autor que se mostra um dos mais promissores dos últimos tempos.

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Livro: O mar não sofre coisa morta

Editora: Moinhos

Avaliação: Excelente

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