A dinastia das filhas de Nefertiti

A paulista Eugenia Zerbini venceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2004, com seu romance de estreia, As netas de Ema. Na história, a vítima de um assalto transforma a experiência numa reflexão catártica sobre a identidade feminina, culminando numa aproximação a Emma Bovary, icônica personagem criada por Gustave Flaubert.

Harém, coletânea recém-lançada, tem novamente a prevalência de mulheres na condução de seus contos.

Combalidas por desejos inalcançáveis, culpas e autoenganos, as personagens cindem o território do corpo e tentam se encontrar por meio de explorações anímicas. Ocorre que o diesel desses incursões internas está no passado, na inflexibilidade da memória contra a qual não se pode imperar.

A autora, aliás, trabalha bem a questão da temporalidade, tornando-a gradativamente um aspecto da sua escrita.

As narrativas têm origem no presente que sempre acaba tomado de assalto por um passado irregressível, onde a protagonista se vê presa numa redoma de lembranças que acaba por se converter em palco dramático. Um bom exemplo é o conto “Uma mulher comum”, no qual uma solteirona, que divide um apartamento em Copacabana com a irmã divorciada, percebe no desfile de uma escola de samba o gatilho para devanear sobre o Antigo Egito, onde ela conviveria entre deusas e rainhas.

“Luciferina” tem contexto parecido, entrelaçando a vida de uma doméstica com uma lenda indígena, a fim de se criar uma metáfora sobre catequese e anulação de identidade. Explicaram para ela que seu novo nome de batismo era homenagem a uma das aparições da Virgem, em uma gruta que existia na França, na região dos Pirineus. A menina confundiu as escarpas dos Pirineus com as montanhas de Pirenópolis, onde nascera, tentando mostrar às freiras a intrigante coincidência. Levou um tapa na cara.

O espectro religioso carrega uma força obscura que se repete em “Tia Mariú”, sobre uma italiana muito católica que leva a sobrinha a peregrinar por sete igrejas numa Sexta-feira Santa. A certa altura, a jovem se depara com um padre que acredita ser o próprio Diabo. O desfecho faz referência à noção íntima de pecado.

Zerbini recorre a mitos, lendas, fatos da história coletiva e da particular para manipular a relação entre ordinário e extraordinário, realidade e invenção, subjetivo e concreto. “Maria” é o exemplo mais ilustrativo desse procedimento. Num fluxo ágil, que vai e volta no tempo, a narradora se atrapalha entre ação e emoção, diante de uma situação tensa.

Os melhores contos, no entanto, são aqueles que se enquadram dentro de uma estrutura mais convencional. É o caso do melancólico “Mazé, Mazezinha”, sobre uma tragédia de infância que nunca vai embora; de “Marina”, da complicada relação entre criança e babá; e de “Fúlvia”, um pequeno arco de libertação que, de maneira simbólica, traduz o destino da maioria das personagens. A morte pelo fogo é a menos solitária das mortes porque não morremos nele, mas nele nos transformamos.

As últimas páginas cedem espaço para três narrativas protagonizadas por homens, contudo a coletânea triunfa na investigação do universo feminino. Zerbini demonstra que a entrega de boas histórias lideradas por mulheres depende de um olhar apurado e do entendimento dos signos que precedem sua criação.

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Livro: Harém

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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