A poética que há na morte

O que é um fantasma?, questiona-se o narrador de A espinha do diabo, na introdução do longa de 2001, co-escrito e dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro.

Um momento terrível condenado a repetir-se uma e outra vez? Um instante de dor, talvez? Algo morto que parece por algum momento vivo? Um sentimento suspenso no tempo? Como uma fotografia borrada. Como um inseto preso em âmbar. O que é um fantasma?

Um livro pode ser um fantasma. Ter, na cultura do seu enredo, uma atração fantasmagórica. A casa antiga, de Gregory Haertel, é um livro fantasma em sua forma, pois instila uma atração fantasmagórica, compactuando as interrogações que predizem o destino do narrador do longa à existência de seu protagonista.

Um homem preso a um instante de dor, condenado a um momento terrível que se repete uma e outra vez, em razão do qual tem de conviver com algo morto que parece por algum momento vivo, e pelo qual conserva um sentimento suspenso, como se ele próprio se fizesse uma fotografia borrada, um inseto preso em âmbar; um fantasma, afinal.

“O homem desperta sentindo o corpo morto de Alice esfriando o seu” é a primeira frase do romance, e carrega, em si, toda sua força simbólica. Tudo ali é gélido, lânguido e desolador. O cenário de abertura é o sótão da casa onde vivem, marido e mulher. Eles se encontram refugiados porque a parte baixa está inundada pelo rio que corta a cidade, que transbordou depois de dez dias de chuva incessante.

Toda a cidade de Aguardo está debaixo d’água, portanto. Ilhados, com o auxílio de uma vela moribunda e escassos suprimentos, o homem assiste a esposa agonizar e, sem socorro, morrer. O que vem a seguir é o esforço sobre-humano para dar um fim digno ao corpo.

O escritor catarinense constrói sua trama entre a jornada do personagem e a história mental. Desse modo, numa referência bíblica, os capítulos são divididos da morte ao luto, dos seis dias de via-crúcis até o enterro.

Esse é o tempo real, mas não o expositivo. Durante a sua convivência com o cadáver, e toda provação de enfrentar a força da natureza, o homem percorre uma sequência de eventos de várias temporalidades, visitando a memória e mantendo um diálogo com uma voz onisciente que é a sua e também a presença latente da esposa falecida.

Como é que eu pude amar tanto algo que não era este corpo que está nos meus braços, mas era também este corpo?, indaga-se.

A bivalência narrativa cria um palco para a ascensão da subjetividade, penetrando na psicologia dos personagens e evocando fantasmas que antecederam às suas atuais condições. O primeiro encontro, o namoro, as transas no andar de cima, enquanto os pais dela, no andar de baixo, assistiam televisão, o acidente automobilístico que matou os pais dela, o casamento e a mudança para a casa antiga dos pais dela, a impossibilidade de terem filhos, a traição.

Haertel estrutura seu enredo num formato não convencional, no qual os diálogos se infiltram nos parágrafos, transitando entre passado e presente de uma frase a outra, e alinhavando a tessitura por meio de repetições, elipses, metáforas e imagens de tonalidades expressivas, ora parecentes a delírios, ora parecentes a pesadelos.

Tal efeito contamina a linguagem que, a despeito de um alto teor de experimentalismo, é bem elaborada, e se encorpa de uma poética crua, pungente, que ganha relevo na tradução dos sentimentos, assim como, num caráter mortiço, na escuridão da carne, na decomposição da matéria.

O que era Alice está retorcido e verde. A pele solta-se dos membros moles. Moscas morrem grudadas na gosma que cola o que era Alice, no carrinho. A língua da mulher, inchada e coberta por feridas, salta pelo orifício da boca. Ocupa o buraco dos olhos um líquido viscoso pontilhado por ovos pretos. Ainda frio, o corpo parece menos sólido e gasoso. A nuvem grossa do cheiro é mais palpável e firme do que aquilo que sobrou de Alice no corpo exposto. (“Pare de me olhar assim”).

No ato final, a elevação de outro drama aproxima o texto de uma combinação entre o conto “A casa inundada”, do uruguaio Felisberto Hernández, e o argumento de A passagem tensa dos corpos, do mineiro Carlos de Brito e Mello.

O paralelo, contudo, não macula a originalidade de um romance que foge dos padrões e, por assim ser, alcança sua própria excelência. O que é um fantasma? Um sentimento? Uma palavra? Uma vida? Um fantasma é uma casa antiga. Uma que resplandece.

***

Livro: A casa antiga

Editora: Editora da Casa

Avaliação: Muito bom

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