A revolução na ponta do lápis

A prova maior da importância de uma pessoa é perceber o quanto sua vida se confunde com a história de seu país.

No caso de Henrique de Souza Filho, essa regra cabe à perfeição. Foi um dos combatentes ativos do golpe militar de 64, desafiou a censura do AI-5, participou do movimento em favor da anistia dos exilados políticos, contribuiu para a exposição dos crimes cometidos nos porões da ditadura, e defendeu o direito ao voto popular, após a reabertura política; além de ter deixado um legado incomparável na imprensa, no teatro, no cinema e na televisão.

Henrique de Souza Filho, o Henriquinho, foi um dos melhores no que fazia. Eternizou-se Henfil, um dos mais importantes cartunistas do Brasil.

Em O rebelde do traço, o jornalista e professor Dênis de Moraes revisa a vida e obra do mineiro de Ribeirão das Neves, com um apuro que recompõe o cenário sócio-político-cultural dos anos 60, 70 e 80. Fora de catálogo até então, a biografia ganha uma reedição revista, atualizada e ampliada, vinte anos depois de seu primeiro lançamento.

Do acervo pesquisado, o trabalho de apuração ainda conta com depoimentos de cerca de 150 entrevistados, entre familiares, amigos, colegas de trabalho e pessoas próximas. O relato definitivo tem início em fevereiro de 44, dia do nascimento Henfil, e finaliza-se em janeiro de 88, na comoção de seu enterro.

De uma família de oito irmãos, Henriquinho foi um dos quatro que nasceram com hemofilia. À época pouco conhecida no país, a doença, que se caracteriza por afetar a coagulação do sangue, levou a família a se mudar para Belo Horizonte, onde o pai, antes padeiro, passa a se dedicar ao serviço funerário.

Ciente de sua condição de fragilidade, tal qual a do seu irmão Betinho, que se isolou por anos, tendo como única companhia os livros, Henriquinho evitava as travessuras da infância, descobrindo aos poucos sua aptidão para o desenho. Anos mais tarde, já envolvido com a liderança da esquerda católica, foi exatamente Betinho quem confiou ao irmão mais novo sua primeira “encomenda de trabalho”: ilustrar os cartazes e os folhetos da Ação Popular (AP), com fins de cooptar estudantes.

Betinho, de fato, foi o exemplo a ser seguido por toda a vida por Henriquinho. Através de sua influência, este filiou-se ao pensamento de esquerda trazido pelos dominicanos franceses, nos anos 50, que o fez ingressar no movimento estudantil católico e o qual seria o alicerce de toda a sua postura política, um radicalismo revolucionário.

Dos cartazes, então, os desenhos lhe garantiram o primeiro emprego, na revista Alterosa, contratado por ninguém menos que Roberto Drummond. Foi Drummond quem o batizou de Henfil (inspirado no cartunista francês Sempé: No Brasil, é sempre bom parecer estrangeiro), e foi ali também que surgiram seus personagens icônicos, Os Fradinhos, estes inspirados nos frades dominicanos. Cumprido e Baixinho foram a gênese do humor provocador, contundente, político do primeiro ao último traço.

A partir daí, inicia-se uma sequência de passagens e colaborações por diversos veículos de impressa, a exemplo do Diário de Minas e da Última Hora. Henfil começa a ser reconhecido, a ganhar prêmios por seu trabalho, a lançar livro. Dênis entrelaça a ascensão profissional a fatos de foro pessoal, tal qual a prisão de Betinho, dois anos depois da instituição do regime militar. Nesse período, o cartunista muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a ter uma coluna no célebre Jornal dos Sports.

Aqui vale o parêntese para uma curiosidade. Os apelidos usados até hoje para ilustrar os torcedores dos quatro grandes times de futebol no Rio foram criados por Henfil. Urubu, Flamengo; Bacalhau, Vasco da Gama; Pó de Arroz, Fluminense; e Cri-Cri, Botafogo. Todos na forma de personagens moldados por simbolismos.

A próxima redação que fez parte é, sem dúvida, com a qual ficou mais associado. O Pasquim, onde dividia o espaço do traço com nomes como Ziraldo, Jaguar e Millôr, foi a sua trincheira de resistência contra a ditadura, driblando a censura com um humor cáustico, por vezes agressivo, que era a maneira pela qual intentava mobilizar a sociedade na luta para se reconquistar a democracia. O caso é que nem sempre deu certo. Em 70, depois da publicação de um cartum que esculhambava D. Pedro I e seu grito às margens do Ipiranga, o jornal foi invadido pelos militares e todos os presentes foram presos. Henfil escapou, mas sua permanência no Brasil logo se mostraria insustentável.

Na fervura d’O Pasquim, estreia no Jornal do Brasil, onde dá vida a um trio de personagens eternos: Graúna, Zeferino e Bode Orfelana. Esse é realmente um período intenso: sua cunhada, esposa de Betinho, na ocasião exilado em Cuba, é presa e torturada; recém-separado da primeira esposa, com teve o único filho, conhece Berenice; suas ligações com a AP e o Partidão tornam-se condição de risco, de modo que decide se mudar para Nova Iorque.

Os Estados Unidos passa a ser outro feito na vida de Henfil. Sem falar inglês e precisando de emprego/dinheiro, batalhou para vender seus cartuns num país no qual os jornais são regidos pelos sindicados. Depois de muitas negativas, foi o primeiro cartunista brasileiro a ser aceito na imprensa norte-americana, ainda que a recepção do público não ter sido nada boa. As tirinhas d’Os Fradinhos chegaram a ser chamadas de doentias. A estadia estrangeira, porém, é interrompida com o anúncio da destituição da censura.

Henfil volta ao Brasil diante da promessa dos militares de abertura política, contudo sem perder o brio da militância. Participa ativamente do movimento pela Anistia, cujo hino coube à interpretação de “O bêbado e a equilibrista”, por Elis Regina, com que, aliás, teve um affaire. Aproximou-se também da causa dos operários do ABC paulista, por meio da qual conheceu o líder sindical Luiz Inácio da Silva, o Lula. As ilustrações nas cartilhas com intuito de mobilização dos trabalhadores nas fábricas foi o início de sua participação no que resultaria no nascimento do PT, no qual sempre “esteve pela luta e nunca pelo poder”.

A chegada dos anos 80 é marcada também pela redemocratização e a volta de Betinho ao Brasil. Henfil agora assina a última página da revista Isto é e, após uma participação bombástica na TV Mulher, é contratado pela Globo para assumir um quadro no programa chamado TV Homem. Também se envolve mais com o teatro e o cinema; lança novos livros. No campo amoroso, termina seu segundo casamento e relaciona-se com Lúcia, à época uma jovem de 15 anos, vinte anos mais nova. Casam-se.

A militância segue firme na campanha pelas Diretas Já!, com o uso dos seus personagens. Publica seus cartuns n’O Globo. Até que, por meio de transfusões de sangue, contrai o vírus da Aids, doença que iria matar ainda dois dos seus irmãos. O último capítulo do livro, “O tufão na gaiola”, retrata o calvário do cartunista, aplicando a mesma luta com que defendeu seus ideais políticos, agora na defesa da própria vida. O caso é que foi infectado num tempo em que o vírus não dispunha de combate.

A morte de Henfil marca igualmente a morte de um cartum exclusivamente político, que denunciava, zombava, deixava descoberta as convicções de seu autor, um homem que, como expõe Dênis de Moraes, era dos mais generosos, altruísta, que abrigava amigos em sua casa, ajudava, trabalhava de graça.

No quadro atual da política brasileira, faz muita falta um Henfil, embora, 18 anos após sua morte, suas tiras continuem atuais. A mesma canalhice representada pelos Fradinhos, as mesmas mazelas que eram protagonizada pelo Bode Orfelana. Henfil já havia escrito, num passado distante, a frase que ilustra nosso presente: Que país foi esse?

***

Livro: O rebelde do traço – A vida de Henfil

Editora: José Olympio

Avaliação: Excelente

Anúncios

Um comentário sobre “A revolução na ponta do lápis

  1. Aw, Jim, you wouldn’t be you without the making of fun, so I’m glad that will not stop.As for the rest, thank you for your kind words. And if we can attribute some of your chsaicterartics to your dad, that’s an interesting picture of your dad… (I remember your telling us a few stories about him, too… )Thanks for replying and hugs from Astoria.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s