A literatura como prato principal

 

Em 2002, ao desembarcar na estação de L’Aber Wrach, um vilarejo francês a oeste do país, Alexandre Staut se viu um selvagem.

Assaltado pelo total desconhecimento dos costumes, do comportamento e, sobretudo, da língua nativa, veio-lhe imediatamente à memória o longa O garoto selvagem, dirigido por François Truffaut, que assistia nas madrugadas dos anos 80, na célebre Sessão Coruja.

Na história, um menino achado na floresta é levado para um vilarejo, onde passa a viver sob os cuidados de um médico que se utiliza da alimentação para ingressá-lo na vida civilizada. Assim como o garoto, Staut percebe que, a partir daquele momento, ele também precisaria se adaptar àquela nova sociedade.

O motivo de ter ido à França veio do convite do amigo Yann Danjou, que estava prestes a abrir um restaurante. Staut e Danjou haviam se conhecido, alguns anos antes, em Londres, onde o brasileiro viveu um período, na qual passou de lavador de pratos a ajudante de cozinha em restaurantes refinados. Foi ali que aprendeu a cozinhar.

A proposta, então, era usar essa experiência no modesto restaurante na cidade litorânea de Brest. O desdobrar dos fatos é o que movimenta a trama de Paris-Brest, publicação mais recente de Staut.

Misto de romance de formação e diário de viagem, o livro apresenta, de maneira muito original, o gênero da auto-ficção. O autor manipula, com perícia e envolvimento, as próprias memórias a favor de uma narrativa que reconstitui o passado no adesivo de expressões artísticas; a música, a literatura e, predominantemente, a gastronomia. Prova disso é que muitas iguarias são descritas em seus modos de preparo, revelando outra característica do livro: ser também um volume de receitas.

Acima dessa estrutura compósita, porém, flui um texto coeso, um relato íntimo marcado pela sensação de não pertencimento ao mesmo tempo que por uma gana de que as coisas deem certo, mesmo que tudo aponte para o fracasso.

A cozinha do restaurante é seu pináculo particular, de onde enxerga o Brasil através de pratos típicos que encantam os franceses, a exemplo do frango a passarinho e da indefectível coxinha, mas também onde orbitam suas frustrações, seus anseios e suas saídas; é onde se dá conta, afinal, de que, de omeletes a terrine de foie gras de ganso, a arte da culinária não consegue sobrepor, em si, a arte da escrita.

Com um conteúdo sui generis, Paris-Brest é um livro marcado por sensações, que oferece, ao leitor, uma experiência das mais saborosas.

 

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Livro: Paris-Brest

Editora: Companhia Editora Nacional

Avaliação: Muito Bom

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