Contos em que ressoa a arte

Em Até de repente, o paulista Rodrigo Maceira subverte a estrutura convencional do conto, lançando mão de uma tessitura que se apontoa nas marcações de suas referências externas, na concatenação de significados que extravasam os limites internos das narrativas.

Não é o caso de uma escrita experimental, e sim de uma que leva o leitor a frequentar outras experiências. O enredo nuclear está lá – e este se sustenta na conjunção de enlaces e de fraturas de relações pessoais -, porém a prosa ganha de fato substância na atração de um repertório incidental, nas estações de uma voltagem que ilumina as lateralidades em detrimento do plano central onde a ação ocorre e define os destinos dos personagens. A matéria-prima é a arte, e o produto final também.

Vejamos o conto que abre a coletânea, “Lembrando de Bia”. No esforço de se recordar de sua madrinha, uma velha amiga de sua mãe chamada Bia, o narrador remonta uma estamparia de canções e livros da virada dos anos 70 para os 80. O mesmo expediente reina sobre o ótimo “Deus vai te derrubar”, no qual um professor de jovens com necessidades especiais se envolve emocionalmente com uma aluna portadora de ELA, gerando conflitos intratáveis em seu casamento.

Aqui, as expressões artísticas conjuram de Bowie a RPM, de Perec a Godard. Maceira parte de histórias de contornos simples para dar vida a um painel riquíssimo, onde a música, a literatura e o cinema conformam o espaço-tempo no qual os personagens se encontram, possibilitando uma leitura que não se restringe às suas motivações iniciais. Um efeito que modifica o próprio conceito do livro.

Entendê-lo como uma coletânea de narrativas fechadas, com arcos claros e específicos, não deixa de estar correto. Contudo, um olhar mais apurado pode descobrir nuances, intenções e elementos reincidentes que estabelecem conexões entre os contos, dando a ideia de um romance fragmentado ou, quiçá, uma coletânea que persegue uma unidade. Essa proposta não se limita apenas ao que concerne aos personagens, mas também ao cenário. São Paulo é a cidade que incorpora aos textos sua força simbólica.

O eixo magnético está no conto “Heroes” (Bowie, lembra?). Antes de dar início a uma sucessão de encontros e desencontros, que emula a dinâmica teatral, o autor apresenta os atores dramáticos através das descrições de seus gostos, suas atitudes, seus desejos. São peças de uma engenharia de quebra-cabeça, cuja possibilidade de arremate vaga pelas páginas, na dependência da atuação do leitor. Algo como extraído do trecho de um diálogo de “Book Lovers”, um conto sobre a gestação de um roteiro, que gradualmente se combina à gestação do próprio conto.

A ideia de ficção era turva; não existia, na verdade. A tábula era rasa demais para eu conseguir filtrar o provável do não provável.

Em sua segunda coletânea de contos, Maceira se mostra um autor interessante, com segurança para não ser atropelado pelo tráfego de referências que mobiliza, e bom domínio técnico para amarrar suas narrativas nas partes não evidentes. Uma literatura que configura sua escala na dimensão das formas e das figuras artísticas que traz para si, deixando, ao fim de cada conto, a ressonância de suas menções feito um acorde de guitarra que vai se distanciando à medida que a música termina.

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Livro: Até de repente

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Bom

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