O escritor encara seus fantasmas

Ao pensar sobre a memória, penso sobre a visão da fileira de postes que abre a novela Um, dois e já, da escritora uruguaia Inés Bortagaray:

Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passa e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro.

Penso a memória como esse rastro. Os fantasmas de uma realidade que se encaixa entretempos, pela qual nunca se alcançará o futuro.

Estamos sempre em vias de nos perder. Postados sobre a lâmina do parapeito, sobre um cadafalso que se abre reiteradamente para quedas pronunciadas, que se configurarão na grande queda fatal e inestimável. Penso na memória como os detritos do existir. O que sobra de um movimento a outro, a visão da fileira de fatos.

A memória é um encadeamento frouxo de fatos passíveis a engano, emendado pela invenção. Pense: sempre que voltamos a uma casa da infância, tudo parece diferente, ainda que inalterado, pois nós agora somos diferentes e a memória faz o jogo desonesto de sobrepor a verdade à imagem fabulada.

A infância tem a memória ruim. O olhar pueril é o mais falho, em razão do longo alcance. Sua legitimidade é frágil, movediça, incapaz de servir para constar com exatidão quem somos e, sobretudo, quem realmente são aqueles que ocupavam o cerco dentro do qual convivíamos.

A memória é uma mentira. E todo escritor que trabalha com a memória é um mentiroso ainda maior.

O paulistano Marcelo Nocelli é, por assim ser um escritor mentiroso, pois a matéria basilar de seus contos é a memória.

Em Reminiscências, seu terceiro livro e primeira antologia de contos, as lembranças dão conta de impulsionar seus personagens a um acerto com um passado ainda tão próximo ao presente que, de fato, adentra-se numa zona indefinida onde os ponteiros parecem se imobilizar.

A contenda é com os mortos, e também uma rixa consigo. Contra a nulidade de triunfo, a frustração, a impossibilidade de matar quem já está morto. Desse modo, suas mentiras é sobre as formas de voltar para casa, sobre reaver um espaço agora inexistente ou, na melhor hipótese, desabitado. As mentiras de Nocelli são da safra das de Fernando Sabino, Luiz Vilela e Ronaldo Correia de Brito. As mentiras dos mortos, aquelas que insistem em perturbar a vida.

A morte do pai

Há muitos encontros com fantasmas, e os patriarcais são os que mais assombram as páginas.

Antes do conto de abertura, a epígrafe do escritor mineiro Lúcio Cardoso dá o tom do que está por vir: Que são os fatos de que nos lembramos, senão a consciência de uma fugitiva luz pairando oculta sobre a verdade das coisas?

Todos que deixam a cidade de origem é, de certa forma, um fugitivo. E voltar, depois de um longo período, é jogar luz sobre o tempo pretérito, ainda que a radiação não seja suficiente para clarear o oculto. Assim perambula o personagem de “Remissão” pelas ruas que percorreu na infância, sentindo-se um estrangeiro, dando conta de que “aquela não era a mesma cidade que tentava rememorar”. Não apenas ele que se perdeu do lugar, mas o lugar se perdeu de si. Uma estranheza que o escolta ao enterro do pai, com quem tinha uma relação conflituosa.

Nesse ponto, se pensarmos em unidade ou em eixo temático, a figura do pai, do genitor severo, obtuso, anulador, é a que mobiliza o fluxo semântico do livro. Muito mais que se debruçar sobre o caixão, sobre o despojo humano, há nesse ato de enfrentamento um valor simbólico maior: convencer-se de que o pai material está realmente morto e, dessa maneira, matar o pai abstrato, para, enfim, dar sentido a própria vida. Deixei um arranjo de flores ao lado da coroa da família. Despedi-me dos amigos e parentes com um breve aceno. Não fiquei para o enterro, tinha um seminário importante para apresentar em São Paulo, no dia seguinte, conta o personagem. Nada mais importa agora, além de vivenciar o banal.

Em abismos semelhantes se laçam os narradores de “Lembranças” e de “Alvitre”.

O primeiro conto se sustenta na evocação da infância, no olhar do menino que captura os significados e os fatos através da apuração falha, própria dos primeiros anos de vida. Em proscênio, está a imagem do pai, austero porém bondoso com os filhos homens, que, aos domingos, os leva ao cinema, compra pipoca e sorvete, os deixa “correr e brincar pela praça, enquanto joga cartas com amigos”. Num segundo plano, todavia, está o pai verdadeiro, com o qual o narrador-menino não se relaciona e, portanto, desconhece. Infiel, bêbado, machista, que faz da filha mais velha um tipo de empregada e da esposa uma pessoa “na maioria das vezes calada”.

O segundo conto, por sua vez, submete-se ao mesmo regimento que o da narrativa inicial: a ausência corpórea do pai. De volta à casa pregressa, o protagonista tenta compreender, enquanto remexe nas coisas que pertenciam ao genitor, se este lhe “causa mais terror quando vivo, ou depois de morto”.

Ainda nessa seara, temos o ótimo “Domingos”, no qual, a partir de efeitos sinestésicos, o narrador vai (re)construindo a casa do avô na memória. Com uma dosagem maior de lirismo, Nocelli novamente cobre com um verniz de encanto as máculas que o olhar da ingenuidade não é capaz de distinguir.

Neste caso, a divergência entre pai e filha, a mãe do protagonista. Eu o olhava com admiração. Não tinha ressentimentos (…) Estar naquela casa era, para mim, o melhor que poderia acontecer nas férias de julho. Então adulto, apesar das evidências nítidas do conflito, o narrador prefere descampar aragens da meninice, a fim de sustentar a mescla de saudade e veneração pelo avô e, portanto, refugiar-se num cenário nebuloso, onde as escolhas não precisam ser claras para preponderar. Os mortos enxergam melhor no escuro, defende-se, de certa maneira.

A morte do autor

Esse signo que rege o livro vai diminuindo e aumentando intensidade na evolução da leitura, porém sem desaparecer por inteiro. Desse modo, outros temas são explorados, multiplicando as perspectivas sobre a unidade original.

É o que ocorre em “Amanhã, outro dia”. Um homem resiste às mudanças na cidade onde nasceu, atracado ao espectro de um tempo que os avanços imobiliários tentam exorcizar. A pressão do presente – e, por conseguinte, do futuro – sobre o passado volta a incorrer sob um outro viés: o da vida que vai se remodelando a contragosto e causando fins incontornáveis. Foi até o portão para contemplar o cenário que a cada dia se alterava um pouco, tão pouco que só se dava conta, espantado, no final de cada ano.

“Planária” e “A menina e o homem” são também ocorrências de perdas.

O último, a perda da inocência, num instigante e bem sacado causo com ares fantásticos. Já o primeiro, por soar fantástico em razão da crueza e do grotesco dos fatos, sobrepesa a fragilidade do existir ante o sorvedouro da morte. O problema não é o dia do nascimento, o que realmente me preocupa é o dia da minha morte. Só em pensar que não tarda a chegar, fico tenso. Uma mistura de horror e ansiedade. A estranheza diante do desejo pelo fim justifica-se pela asfixia da própria vida. No conto em questão, a de um velho esquecido num asilo moribundo, “um valhacouto sujo e fedorento”, cujo fluxo de consciência é guiado por repugnância e raiva de tudo e de todos, inclusive de si.

Num tom menos ácido, está a voz anciã de “A pura, vida”, trancada num prédio de apartamentos, onde a filha a sustenta vendendo serviços sexuais. (…) eu ficava nervoso, brigava e dizia que filha minha não faria isso, que minha família era de respeito… Quanta bobagem. Respeito porra nenhuma. Esse negócio de respeito acabou faz muito tempo. Sob a manta da sobrevivência, a decência moral é também uma morte.

Nocelli trafega por esse avesso, mirando uma tessitura que, embora busque o apuramento das palavras, faz questão de exibir as linhas tortas, os fiapos, os nós. Com raras exceções, todos os contos são narrados em primeira pessoa, o que tornam mais potentes os traços recorrentes nos personagens, como o cansaço, a melancolia, a descrença, e uma dose de ironia e perversidade.

Esse apelo para o íntimo, entretanto, não anula a varredura externa, a filmagem do cenário que igualmente é constituído por falhas, estabelecendo enlaces entre a estrutura e a narrativa. Assim vai até o quase fim, quando há o rompimento causado pelo conto que empresta nome ao título, o último.

“Reminiscências” faz um jogo interessante entre verdade e ficção, num tipo de diálogo onde se parece estar diante de uma mulher, mas se confronta a folha em branco, a literatura. Nada me prende a você, a não ser você mesmo, confessa o narrador, confessa o escritor.

Nocelli brinca em converter matéria biográfica em matéria literária, e assim finaliza o livro desfilando medos e angústias comuns àqueles que, em dado instante da vida, questiona-se se realmente valeu a pena dedicar tantos anos à escrita. Seja na vida ou na arte, todo autor é assombrado pelos fantasmas do passado.

***

Livro: Reminiscências

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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