Sobre bandeiras e muros demolidos

O título escolhido, Arame farpado, traduz perfeitamente o conceito que mobiliza a recente coletânea poética de Lisa Alves. É autônomo, desapropriado a qualquer um de seus poemas, e refere-se à função prática do fio de metal cortante que lhe empresta nome: manter protegido aquilo que está em seus domínios e enfrentar o que está fora.

Pois é também uma poesia belicosa que faz a escritora mineira radicada em Brasília. Seus versos são audaciosos, mordazes, denunciatórios, condensados a um alto teor de crítica social, de percorrer o cenário urbano e capturar as mazelas que se propagam tal uma epidemia de exportação, numa sintaxe imagética da qual se descortina a narrativa jornalística, a crônica que se engendra de experiências reais e de reflexões filosóficas.

Dias atrás vi crianças brincando – dançavam crackeadas,/escondiam-se nos esqueletos/dos carros e no ápice do espetáculo/ouvi a caricatura metamórfica:/Bocas para sempre caladas,/olhos bloqueados por trevas,/pernas com passos bem curtos/e o coração é de pedra, do forte poema “[o taos do caos]”.

Não por menos, uma das epígrafes do livro é sacada do Manifesto Potencialista, que prega a arte como “o verdadeiro despertar da existência”. Diz a frase: “A poesia chegou ao seu momento crítico: ou vai às ruas ou definha nas academias”. Voltando ao poema supracitado, a autora declara: Adoeço, esvaneço, chego perto do fim./Perdi o meu Estado e agora me declaro:/Senhora de mim. Lisa protesta e impõe bandeira. De modo que versificar é captar o real em seus superlativos e incorporá-lo a um movimento maior que a escrita, e ainda assim impresso no texto. Ali estão as turbulências do mundo e do homem, uma experiência material e ontológica que se transfere para a linguagem.

Assinar contratos – brindar com o Mefisto./Pagar o dízimo e livrar-se das dores de consciência./Purificar as mãos, perverter a subjetividade./Cantar hinos glorificando personagens fictícios./Fazer juramentos – dedos cruzados./Tornar-se um vestido, um terno e duas gotas de Chanel./Comprar fazendas – marcar o gado./Uniformizar, reformar, restaurar, reerguer antigas estátuas./Filmar-se, mostrar os dentes, doutrinar a língua./Direita e Esquerda, descansar!, do poema “[a marcha]”.

Se fosse o caso de eleger a matéria-prima da antologia, esta seria a miséria humana. Tanto a de quem a impõe quanto a de quem se oprime. A poética, nesse caso, conforma-se a um discurso de ressonância política, direcionado ao sofrimento do “homem do museu” que é atormentado pelo “espírito do capital bruto”, dos cegos pela fé calculada em cifrões, dos filhos obedientes “às leis de Putins, Felicianos e Cartilhas Sagradas”. Estou à margem./Estarei mesmo à margem ou a margem é ilusão?.

Nesse contexto, a autora se mostra discípula da chamada “poesia marginal”, gerada na década de 70, cujas características, como aponta o professor Ítalo Moriconi, na apresentação do volume Destino: Poesia, dão conta da relação intrínseca entre versos, ideias e imagens. Dessa corrente, destaca-se o também mineiro Cacaso e seus poemas do exílio. Além disso, há uma influência patente do Carlos Drummond de Andrade, de A rosa do povo.

Meu sexo é algema, mácula e saia longa

Outro aspecto que se impõe é a multiformidade estrutural. Entre poemas curtos e longos, a autora se vale de uma métrica irregular, ora linear, ora de rimas acidentais, ora sem rimas, guardada sobre uma linguagem que, embora se finque no real, no empírico, apresenta ocorrências de metáforas, de hiperestesia, de elipses e, com mais regularidade, de subentendimentos. A frequência depende da classificação do capítulo. Dividida em seis partes, a coletânea trata “Dos territórios”, “Da dominação”, “Da vindicta”e “Das contradições”, nas quais imperam os poemas referidos anteriormente, marcados pela tensão, pela opinião crítica, pelo ceticismo. Já “Da poesia”, apresenta um caráter de reflexão, da poeta que se vê diante de seu tempo, diante do exercício poético que nunca será a lâmina de um espelho. A Poesia não quer que falem de poesia./A Poesia não é um ser em si, a poesia é uma consequência./Isto não é Poesia e sim a incapacidade de percebê-la, do poema “[aquilo que não é]”.

“Do eu”, seção que abre o livro, obviamente não tem uma verve política e social, mas é tão potente quanto. Aqui a autora expõe suas angústias, seus desejos, suas lembranças, suas orientações. A sexualidade adquire relevância. Porém não de forma explícita, rebelde. Tampouco por pudor ou por discrição. Lisa explora a temática com sensibilidade, argúcia, despertando o que há de mais producente na poesia: a percepção. Minha pele sofre erosões, desmatamentos e perfurações./Meu corpo sofre transições, desabamentos e reformas./Meu sexo é macho e fêmea e/minhas preferências são sazonais, escreve em “[diagnóstico]”.

Encarando o reino de si e as conturbações do mundo, Arame farpado é um trabalho vigoroso de um autora cuja ambição poética não se presta a ser decorativa e está longe dos sonetos de amor. Tem um norte bem definido, engaja-se em seus propósitos e os alcança sem romper as barreiras da literatura e se tornar propaganda. De fato, os muros que caem são os pintados pela normalidade, evocando algumas questões colocadas por Albert Camus, em O mito de Sísifo, no que diz respeito à insensatez, à liberdade coletiva, à desesperança, ao absurdo.

O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio despropositado do mundo. E isso que não se deve esquecer. É a isso que e preciso se agarrar, pois toda a consequência de uma vida pode nascer daí. O irracional, a nostalgia humana, o absurdo que surge do diálogo entre eles: eis os três personagens do drama que deve necessariamente, acabar com toda a lógica de que uma existência é capaz.

A poesia não carece de lógica para existir, mas, quanto a tem, é capaz de manter a pedra no alto da montanha.

***

Livro: Arame farpado

Editora: Coletivo Púcaro

Avaliação: Muito bom

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