Os hamsters dançam na floresta

Uma informação de bastidores dá a medida da controvérsia que a poesia de Rafael Sperling pode gerar.

Na apresentação desta estreia poética, incorporada à Coleção Kraft, o editor Marcelo Reis de Mello comenta: “A decisão de publicar estes poemas (…) não foi unânime nunca, o que me leva a sentir um prazer adicional em colocá-los no mundo. Isso depois que uma famosa poeta contemporânea simplesmente ignorou meu e-mail solicitando um prefácio. E outra negou educadamente por falta de tempo. E um dos maiores ícones da poesia marginal disse que gostava muito do primeiro livro de Sperling, mas que desistira de fazer o prefácio porque isso não é poesia”.

Sem querer entrar nessa polêmica (mas já atolando meus pés), discordo bravamente do incógnito marginal. Uma das funções primordiais da arte é incomodar. Arte que não causa discussão é panfleto. E, mesmo que faça Mário de Andrade revirar feito um pião no túmulo, recorro à sua frase batida de que “conto é tudo aquilo que o autor quer chamar de conto”. Mas por que só o conto? Por que não a poesia? Que fique registrado. Sérgio Tavares uma vez disse: “Poesia é tudo aquilo que o autor quer chamar de poesia”.

Mas qual a controvérsia da poesia de Rafael Sperling, afinal?

Ainda que isso seja um comportamento de idiota (o que não me eximo de ser), vou responder a uma pergunta com outra pergunta: “Você, leitor, já leu algo desse autor?”.

Caso não, recomendo pôr em espera essa antologia poética e começar pelas antologias de contos. Caso sim, saiba que os poemas são constituídos dos mesmos elementos que seus textos em prosa: o escatológico, o absurdo, o humor grotesco, o nonsense, a violência gráfica, a textura cartunesca, a pornografia.

Parece aquela piada de teor onanista, em que a visita vê o menino entrando no banheiro com papel e caneta, e pergunta para a mãe dele: “O que o Joãozinho está fazendo no banheiro com papel e caneta?”. Daí a mãe responde: “Poetando”.

Eu, você, e todo mundo, junto, tocando punheta e ejaculando em rede nacional, ejaculando no Brasil todo, deixando encharcado de porra, ejaculando na cara das crianças, dos velhos e das mulheres, ejaculando na cara estúpida da sua mãe, ejaculando na bunda do teu cachorro…, de “Ejaculando”.

Como deu para notar, há a predominância do expediente narrativo. Mas isso faz com que deixe de ser poesia? Não. Há poemas de estrutura versificada também. Sem métrica, versos brancos. Marcados pelo desarranjo, pelo descompasso, pela repetição, por onomatopeias, por temas que parecem saídos de um roteiro de Yo Gabba Gabba! on drugs.

Reis de Mello, na supracitada apresentação, aproxima a poesia de Sperling ao movimento dadaísta. Pode ser. Mas também é uma poesia pós-moderna, uma poesia surreal, uma poesia visual, uma poesia marginal, uma antipoesia. Sperling é um autor peculiar, que não precisa se encontrar com nenhuma corrente. Tem assinatura.

O que pode dar a impressão de que não está nem aí. Longe disso. Todo absurdo é uma maneira de superlativar a realidade. Vide o trecho: Quando cheguei em casa, acontecia uma revolução. O fieis cortavam seus pulsos com navalhas negras, e comiam biscoitos de água e sal. A água ainda caía na minha cabeça, mas o sal dava um sabor especial de ameixa, do poema “O Sol é Sol”.

Ou em “Sobre Holocausto, Ornitorrincos, Receitas e a Economia Chinesa”, o melhor texto, no qual descrições dos quatro temas se embaralham, numa composição em que a falta de lógica é o que constitui estranhamente uma unidade, um sentido superior.

Sperling sempre foi um autor que pode provocar desgosto, mas nunca indiferença. Sua estreia poética cumpre o mesmo propósito. Não vai figurar nos bilhetinhos de amor ou numa propaganda emotiva de banco privado, mas pode caber entre as quatro linhas de um bandeira anárquica.

– Olhem isso. Isso é poesia. Vejam. Compreendam. Abracem a poesia, com força. Esmaguem-na. Usem toda força. Destruam a poesia. DESTRUAM!

Alguém que faz uma poesia para destruir a poesia não pode ser nada além de um bom poeta.

***

Livro: Rafael Sperling, Coleção Kraft

Editora: Cozinha Experimental

Avaliação: Bom

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