Selvagens de um mundo pós-literário

Três meses atrás, uma pesquisa mostrou que, em 2015, o mercado editorial brasileiro registrou o pior resultado de vendas dos últimos dez anos. Segundo os índices, a queda real só não foi mais trágica, por conta dos livros para colorir e os dos chamados youtubers. Aliás, um desses “novos autores nascidos da internet” empatou com Machado de Assis, em citações, num outro levantamento que perguntava sobre a leitura mais recente do entrevistado. Soma-se os dois documentos, e não temos um dos cenários mais animadores.

Pesquisas são importantes para se ter uma noção exata do que se investiga. A despeito da clareza dos dados, nenhum estudo certamente examinará, com tamanha agudeza, a crise no mercado do livro quanto o recém-lançado O grande zoológico, de Howard Jacobson. Vencedor do Man Book Prize, o jornalista e escritor inglês faz uma sátira da presente situação do universo editorial e da figura do autor, com uma clarividência espetacular que vai do hilário ao tragicômico.

A trama começa com o protagonista Guy Ableman sendo parado pela polícia, depois de furtar um exemplar do próprio livro de uma livraria numa cidade do interior. Ele estivera ali para participar de um grupo de leitura composto apenas por mulheres, onde foi acusado de misógino, dentre outros adjetivos desagradáveis. A razão está em seu bem-sucedido romance Vai pentear macaco!, no qual compara o sexo aos hábitos dos chimpanzés, com base no namoro ardente que teve com a funcionária de um zoológico.

Ocorre que este é um dos menores problemas de Ableman. Seu editor acabou de cometer suicídio e seu agente morre de medo que lhe entregue um grande original, que não tenha onde publicar. Seu casamento é também marcado por um dilema. Além de sentir uma atração irresistível pela própria sogra, ele não é levado a sério pela esposa, que tenta finalizar o primeiro livro. “A gente sabe que está nadando na merda como romancista quando não são apenas os nossos heróis são romancistas enfrentando problemas para terminar seus romances, mas quando a nossa mulher é uma romancista enfrentando problemas para terminar o dela”, reflete o escritor.

Jacobson persegue, em seu livro, o sentido literal e o literário. Na superfície, é uma maliciosa metáfora sobre o quanto os desejos sexuais e suas transgressões rebaixam os homens a um comportamento selvagem, aquele de seus ancestrais primatas cuja cópula é livre entre membros de uma mesma família. Indo mais fundo, o que se revela é uma análise, ora incrivelmente divertida ora incrivelmente amarga, de um mundo onde a literatura que se conhecia deixou de existir.

Para esse sorvedouro de atrabílis, escorrem as livrarias e os livros físicos, a formação (e o talento) do escritor, a livre escolha dos temas isenta de patrulha. O autor inglês zomba dos blogs e de outras tecnologias de uso social, da cultura de exposição, da literatura feminina e da banalização da crítica literária. Tudo com uma perícia extraordinária de examinar o agora, a realidade em curso enquanto ainda escreve, que acerta em cheio o resenhista desse texto.

Durante um dos momentos da leitura do romance, mostrei para minha esposa uma frase que dizia que ninguém encontraria paz casando com um escritor. Houve uma pausa reflexiva, em seguida ela me devolveu um sorrisinho. Um que dizia muitas coisas. Algumas das quais eu não gostaria de saber.

***

Livro: O grande zoológico

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Muito Bom

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