O zumbi antes de The Walking Dead

A série The Walking Dead, baseada nos quadrinhos criados por Robert Kirkman, é responsável por estabelecer uma mitologia de zumbis, da mesma forma que o diretor George Romero instituiu um gênero de filmes de terror, a partir de 1968, com o lançamento de A noite dos mortos-vivos. O longa foi seminal para uma cinematografia – e um catálogo imensurável de outras expressões de arte – de histórias de mortos que despertam com fome de carne humana, dos quais The Walking Dead é a celebração máxima desse meio século.

Isso comprova que, ao contrário dos milenares vampiros, lobisomens e múmias, o zumbi é um monstro da modernidade. Não entanto, apesar da fixação no imaginário coletivo (e na cultura pop) ter ocorrido há pouco tempo, a origem do zumbi não está nos filmes do Romero – ou num vírus, ou num acidente radioativo, ou numa arma química. Delinear esse ponto de partida até o momento em que, convertido em personagem (ultra)popular, o zumbi se torna um fenômeno cultural é a que se propõe A era dos mortos-vivos, de Eliel Barberino. O ensaio faz uma correlação entre apropriação e fascínio nos tempos modernos, problematizando o mito do morto-vivo como uma alegoria da humanidade desalmada e materialista, totalmente descrente quanto a um futuro alentador.

Se a proposição é pertinente ou não, não cabe aqui julgamento. O orelha informa que o autor, “estudante de filosofia e entusiasta em zumbis”, constrói seu livro através da condensação de seus estudos sobre o tema. De fato, é na camada epidérmica que Barberino expõe suas pesquisas e defende seus argumentos, sem nunca ir fundo o bastante. É estritamente uma síntese. E, sendo assuntada na condição de síntese, a linha de raciocínio se sustenta bem, sem atropelos ou contraposições de ideias.

“Alteridade é o conceito que melhor define a análise que faremos dos mortos-vivos. Ao buscar entendê-los, na verdade estaremos numa busca de nós mesmos. Ao fazermos um exame dos temas que os zumbis nos apresentam, creio que você perceberá que os zumbis somos nós, sou eu e você. Que o medo que temos dessas criaturas é um medo sublimado de nós mesmos e dessa civilização que criamos”, defende o autor.

Antes de chegar a essa discussão, porém, o ensaio remonta a mitologia dos zumbis, em seus aspectos sobrenatural, científico e sociocultural. Barberino recorre a pensadores como Santo Agostinho, Freud, Nietzsche, Platão e Deleuze, para dar escopo à sua investigação por fatos, lendas e crenças que, de maneira fidedigna ou não, migraram para a literatura e, ato contínuo, para o cinema.

É o caso da grafia do termo “zumbi” e do vodu, religião nascida no Haiti cujo feiticeiro, o bokor, detém do poder de fazer um cadáver voltar à vida. Tal fenômeno serviu de matéria-prima para A ilha mágica, do jornalista William Seabrook, relato sobre uma expedição pela ilha caribenha, no qual este descreve o encontro com grupos de escravos zumbis trabalhando em plantações. Ainda que uma mentira deslavada, foi essa história, escrita nos anos 1920, que acabou por influenciar Romero e todo um catálogo de poucos bons filmes e uma infinidade de títulos dignos da galeria trash do cinema mundial.

Foram os filmes de Romero que popularizaram os zumbis, mesmo não sendo os primeiros a usarem o monstro como vilão/protagonista. A mitologia do morto-vivo haitiano descrito por Seabrook passou por uma total reformulação, em A noite dos mortos-vivos, acrescentando um fator revolucionário: a fome por carne humana. Até então, essa não era uma característica típica dos zumbis. Esse foi um passo fundamental para se chegar ao apocalipse do mundo que conhecemos. Desse modo, o zumbi deixou de ser uma crença antiga de um pequeno país tropical para dominar, de vez, o ocidente. Com Romero, os mortos que caminham ganharam sucesso e fama.

“O zumbi é o monstro do século XXI. Não somente por ter sido criado há pouco tempo em relação aos monstros clássicos, mas por ser o melhor representante do nosso tempo. O zumbi traz consigo características próprias e que seriam impensáveis em outros tempos. Os mortos-vivos sabem fazer o jogo moderno. Mexer nos traumas corretos da modernidade. De certa forma, é um reflexo desse nosso tempo em crise em que o perigo global nos espreita a cada esquina com suas guerras, crises e atentados terroristas”.

São germes dispostos na última frase que o autor nutre e dá relevância, na parte final, a fim de teorizar a massificação dos mortos-vivos nas expressões artísticas como um sinal da falência do homem moderno, de uma sociedade regrada pela impulso crônico de se autodestruir. Barberino pauta suas questões com elementos empíricos e conceituais, baseando-se na literatura acadêmica e de entretenimento para apresentar maneiras de proceder que, como sustenta, provam que “somos todos zumbis”. Simulacros caminhando em bando e regrados pelo ideal de imortalidade vendido, num pacote mágico, pela indústria de consumo.

“Um dos fatores que caracterizam nosso tempo é a perda da identidade, é justamente o fato de sermos uma sociedade homogênea em que as diferenciações não são enxergadas. Somos todos convidados pela propaganda a usarmos os mesmos produtos e serviços”, aponta.

Com um conteúdo claro e bem articulado, A era dos mortos-vivos é uma boa leitura para os fãs das histórias de zumbi, que traz a proscênio uma reflexão muitas vezes incluída no subtexto das adaptações para o cinema e para a tevê. Um pouco raso em sua averiguação sistêmica, mas que oferece um painel justo de um gênero que demonstra ter vida longa, apesar de ser protagonizado pelos mortos.

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Livro: A era dos mortos-vivos

Editora: Cultura em Letras Edições

Avaliação: Bom

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