À margem e ao centro da escrita

Somos mais limpos pela manhã, de Jorge Ialanji Filholini, utiliza-se da linguagem crua, de ritmo ágil, própria da literatura marginal, para percorrer temas que circundam e fogem deste contexto. O volume de contos abre com “O irmão que a gente escolhe”, um arco sobre amizade e violência, costurado com frases picadas, gírias e expressões coloquiais, tão impressivo que sugere ser esta a tônica do livro. O autor paulista, todavia, refuta a generalização e constrói suas histórias com os mesmos elementos narrativos, mas lançando-se por uma variedade de fontes de inspiração, que vão do conflito social à metaliteratura.

“Ponto eletrônico” e “Vestir o morto”, que vêm em seguida, mostram uma capacidade de capturar o agora e enroupá-lo num tecido de denúncia/crítica. No primeiro, uma senhora interpreta, entre o questionamento e a anuência, o pedido de um pastor para depositar um dinheiro em benefício da igreja. Deus tem conta bancária? Por que o Senhor necessita de dinheiro? Qual a quantia que vale uma prece? Ao passo que o segundo aborda, pela voz rascante da mãe de uma vítima, os justiçamentos populares que ganharam relevo e foram explorados, de maneira sensacionalista, pelos programas policiais.

Quase que entregaram as armas aos espectadores. Vai lá, façam a sua própria matança. Tudo será transmitido ao vivo. Seja um justiceiro. Pegue à paulada o neguinho de bermuda. Quinze minutos de salvador. Quinze minutos de linchamento.

Já nesses três contos, é possível notar um recurso muito interessante utilizado pelo autor: o atalho dedutivo. Um bom exemplo está na narrativa supracitada. Em meio ao fluxo de revolta e dor da mãe do morto, a construção da personagem se dá no eco de duas breves frases: A vingança será em vocês. Filhos dos meus patrões. Subentende-se de que se trata de uma pessoa humilde, empregada de uma família abastada, cujos algozes de seu filho gozam do mesmo padrão de vida. Mais à frente, o mesmo exercício de sugestão vale para o termo “socos brancos”, ao descrever o espancamento. Ao leitor, cabe vestir a carapuça.

O mesmo ambiente marginalizado de ações e perdas, de brutalidade e ensinamento, endereça “Dia bom”, daí a coletânea começa a frequentar outras paragens. “Likes” é uma incursão por um mundo governado por curtidas, selfies, youtubers, pods e pads, no qual os desejos, as ideologias, as identidades e até mesmo os horrores cotidianos ganham tonalidades de corante e sabor de coca-cola. “Mataram o narrador” subverte o ofício da escrita e as manobras do léxico, enquanto “If you can’t say something nice” delineia os altos e baixos de um relacionamento, usando a música e outras expressões artísticas como motor. Nestes casos, ganham relevância as muitas referências culturais que aparecem pelos contos, da literatura ao cinema, da tevê aos quadrinhos, em certas ocasiões cedendo partes de sua matéria para a argamassa estrutural.

“Somos mais limpos pela manhã”, o conto, é o que melhor representa o tom multifário da coletânea, e não por menos empresta nome ao título. Ali, Filholini imprime seu olhar sobre a passagem do prosaico, do mesmo modo que se embrenha pelos meandros da literatura, tanto na condição de autor quanto na de leitor. Passarinho que pia, dependendo do horário, muitas vezes é bonito de escutar, outras enche o saco e te deixa maluco. Um livro e uma arma, por vezes, não se distinguem.

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Livro: Somos mais limpos pela manhã

Editora: Demônio Negro

Avaliação: Bom

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