Puta que pari um bicho morto

A despeito de alguns títulos pontuais, Não, de Bruna Mitrano, parece ser constituído por um longo poema.

Valendo-se de versos livres, a autora carioca descreve a queda na vala emocional de uma mulher que declara guerra ao mundo, ao corpo, à própria existência.

Entre o texto em prosa e o texto poético, Mitrano constrói essa jornada por um ambiente sórdido, marginalizado, que contamina a própria linguagem, ao rastejar pela sujeira das ruas e por aquela que escorre, líquido sangue, líquido sêmen, líquido suor, dos orifícios na carne.

Para isso, alterna estrofes curtas e blocos narrativos, numa composição de teor sinestésico e potência visual, que evoca a poesia concreta.

De fato, como destaca a também poeta Nina Rizzi, no prefácio, são ilustrações-poemas. Termo cunhado a partir dos impactantes desenhos da própria autora que dividem algumas páginas com as palavras, numa simbiose orgânica tão bem constituída quanto na primeira edição do romance K., de B. Kucinski, ilustrado por Enio Squeff.

Esse efeito, contudo, não tira a força da poesia de Mitrano, que explora temas como a infância, o espaço urbano, a miséria e o sexo, compelidos por uma violência que dita o ritmo e agrava a atmosfera. Nada é gratuito, porém. E os fragmentos são partes de uma catarse, de um alucinar nervoso que traz, em seu disparo, a denúncia social.

Pela estrutura e pela matéria, é inevitável vir à lembrança Poema sujo, de Ferreira Gullar. A repressão da ditadura militar, todavia, dá lugar ao horror cotidiano, de homens e crianças brutalizados por vidas dominadas pela desgraça que, de outra forma, é também um tipo de ditadura.

***

Livro: Não

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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