Um país ainda em busca do futuro

Da ficção e seu poder de reproduzir a realidade, a literatura brasileira dispõe de uma série de retratos de figuras públicas e de circunstâncias em que as resoluções de um governo determinam a ventura de um ou de inúmeros personagens.

De Monteiro Lobato a Lima Barreto, a linha temporal passa por Dias Gomes e Rubem Fonseca, chegando aos anos que precederam a última transição de séculos, cujo quadro sociopolítico ambientou bons romances, a exemplo de Memória da pedra, de Mauricio Lyrio, e A felicidade é fácil, de Edney Silvestre.

Um novo título agora se enquadra nesse contexto, com emblema para frequentar a galeria, justamente por ter, ainda que de maneira implícita, o Brasil como protagonista.

Depois do fim, do advogado e escritor Alex Bezerra de Menezes, é sobre consequências e transformações.

Passado, em grande parte, durante a era Collor, o romance é narrado por um professor universitário medíocre na maneira de lidar com a própria vida e com as pessoas que o circundam.

De infância humilde em Sirinhaém, no interior de Pernambuco, ele agora mora no coração de São Paulo e tem a frequente presença do irmão, que perdeu todo o patrimônio em razão do desastroso plano econômico arquitetado pela ministra Zélia Cardoso, e destrambelhou-se numa vida de mulheres e dívidas.

Eis que, então, ambos são informados de uma suposta herança deixada pela avó, um quadro valiosíssimo do pintor holandês Frans Post, um dos primeiros artistas a registrar as belezas naturais do nordeste brasileiro, em meados do século XVII.

A procura pela obra e, por conseguinte, sua negociação de venda em território estrangeiro vão constituir uma teia de mentiras, corrupções e artimanhas que se configuram a matéria que amolda o próprio país. Assaltado por uma série de personagens que, de maneira contundente ou sub-reptícia, irão determinar seu destino, o narrador tateia nessa vastidão imprecisa que lhe é a recompensa financeira, um esforço para o caos social e o íntimo.

Com um prosa bem lapidada, associada à memória e referências históricas, Menezes remonta um Brasil ainda em instável transformação, que coxeia em busca de um futuro depois da redemocratização, do impeachment, do Plano Real e do socialismo do governo Lula; que, enfim, é resultado de seus desvios.

A certa altura, o professor comenta que não existe nem Bem nem Mal, apenas interesses opostos. Possivelmente essa é a melhor explicação para o país que somos.

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Livro: Depois do fim

Editora: Simonsen

Avaliação: Bom

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