Embate contra a própria existência

Estevão Azevedo venceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2015, com o romance Tempo de espalhar pedras. Sete anos antes, o escritor potiguar havia sido finalista na categoria autor estreante, com Nunca o nome do menino, livro que acaba de ganhar uma nova edição.

Revista pelo autor, a obra estrutura-se a partir de duas camadas narrativas que, no movediço da leitura, igualam-se e, por fim, anulam-se. A esse efeito, sobressai uma duplicidade que torna a narradora agente da própria história, ao mesmo tempo que consciente da sua condição de personagem.

O drama começou quando eu, ao perceber que era personagem de um livro, amputei o dedo mínimo da mão esquerda, imaginando com isso arrancar pelo menos algumas letras das palavras que me descreviam – o que dificultaria a leitura e me possibilitaria, talvez, morrer. (…) Se fugissem, os personagens sempre acabariam com seus criadores, são as sentenças que iniciam e terminam o primeiro parágrafo.

Instaura-se, desse modo, um conflito, que será o motor do enredo. Questionamentos e autoquestionamentos descarregados num fluxo que vasculha a memória e recorre a um passado distante e a um que há pouco era presente, a fim de desvendar a autoria dessa existência ficcional.

O palco da subjetividade é por onde a personagem transita, valendo-se da capacidade de observar a si mesma para extrair, de relacionamentos, meios para pôr em dúvida sua residência nos domínios da realidade. É o que ocorre, a todo momento, em suas interações com Emílio, jornalista que abastece uma coluna, num jornal medíocre, com notícias que não primam pela veracidade.

Talvez a ficção seja só outra realidade. Talvez sejamos instrumentos de algum deus que, através de nós, escreve nos livros o mundo que realmente quer que seja criado. Talvez a realidade seja a dos livros e sejamos apenas os intermediários que a construímos, alguns a escrevendo, outros a mantendo viva e espalhando-a como um vírus através da leitura. Um sonho que sonha outro sonho. Não me espantaria se não passássemos disso, considera.

Estevão tece uma trama em cujo arranjo está a dificuldade de dar forma à trama. Por conta disso, lança mão de exercícios e de recursos, como a metaliteratura e a intertextualidade, recrutando referências que vão de Albert Camus a Vinicius de Moraes. Sob esse manto de indistintabilidade, é onde também repousa o tal menino do título, que a narradora conhece na infância e com quem mantém, ao longo dos anos, um tipo parcial de relação afetiva. Suas aparições esporádicas pontuam o enredo em momentos de transições emocionais, levando a crer que o menino, que não tem nome ou detalhes físicos, é mais um elemento dessa história mental em que a literatura se configura, acima de tudo, um desafio.

Eu era personagem e, mais dia menos dia, quando talvez outro alguém já ensaiasse, apaixonadamente e em vão, me fazer esquecer o antigo amor, de algum exílio forçado o menino voltaria, com algumas rugas bastante aparentes, criadas apenas para servirem de indícios do salto no tempo da narrativa, o menino voltaria para viver comigo a história que na realidade nunca haveria terminado. (…) O menino poderia voltar: um personagem!

No posfácio, escrito pelo próprio autor para essa nova edição, Estevão assinala intervenções no texto original, sobretudo no que julgou excessos poéticos. E é justamente nos trechos quando o lirismo transborda que ocorrem derrapagens, porém são compensadas por uma narrativa que se potencializa e ilumina à medida em que avança sua composição, dando sinais claros do escritor que, sete anos mais tarde, ganharia um dos principais prêmios literários do país.

***

Livro: Nunca o nome do menino

Editora: Record

Avaliação: Bom

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