Relações de um sistema em desordem

Alexandre Marques Rodrigues venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2014, com Parafilias, volume de contos no qual o sexo é o meio pelo qual os personagens compensam o desencanto, a solidão, o vazio das relações interpessoais.

Entropia, seu novo livro e primeiro romance, lança mão de mesmo expediente, com a diferença de que o sexo deixa ser um agente amortecedor para assumir o dano de um efeito colateral. O prazer frígido, perecível, é o desvio da busca por um passado em que a conexão com o outro serve à necessidade de se manter ligado à própria existência. Alguém que está ali para quando for preciso, para o uso conveniente e, portanto, descartável.

A trama conforma-se a partir de três linhas narrativas. Um casal de amantes, com distância de idades, mantém um relacionamento norteado tanto pela insensibilidade quanto pela lascívia; um homem, com problemas no trabalho, inventa uma viagem de folga, mas se enreda numa estada de alheamento e de perversão; um marido, cuja esposa demonstra certa resistência ao sexo, vai à procura do túmulo da mãe e dos fatos que envolvem sua morte.

Aqui, cabe um parêntese: caso o leitor não esteja familiarizado com a obra de Rodrigues, sugiro a leitura prévia de sua coletânea de estreia. O autor paulista tem um estilo singular, a serviço da engenharia ficcional, o que pode provocar estranheza e (desmerecidamente) um primeiro contato negativo. O conto, em razão de sua brevidade, mostra-se, assim, ideal para a iniciação.

De volta ao romance, é justamente a escala que possibilita a radicalização da experiência de leitura. Com um campo maior a percorrer, Rodrigues potencializa (e afina) o cuidado para com a estrutura, o ritmo, a escolha das palavras, o arranjamento dos parágrafos, numa carpintaria aduzida do livro anterior. Aliás, recursos e analogias são emprestadas da outra obra. Uma literatura que sustenta um conceito na ascendência da história.

Outro uso que se repete é o do elemento de adesão. Em Parafilias, este se constitui através das referências literárias. Aqui, concerne à música, na representação da biografia de um compositor virtuoso que se abre no meio da trama e parece não se filiar a nada apresentado até então.

Ocorre que, de maneira desagregada, indistinta, as linhas narrativas se atam pouco a pouco, num jogo de identidade, num puzzle psicológico que revela um final surpreendente. Tudo é propositalmente colocado numa espécie de equação, onde os personagens são os fatores e os subtextos, as variáveis.

Destas, a mais relevante é o próprio título. Grandeza termodinâmica, entropia, por derivação de sentido, traduz a desordem num sistema. Mas está no significado da palavra, que vem do grego en, “em”, e tropêe, “mudança”, o truque contextual. Mudança é a palavra-chave do enredo.

Marques entrega um romance com assinatura, de uma técnica extraordinária, que condiz com tudo o que escreveu, por isso mesmo naturalmente esquemático, por isso mesmo acertadamente difícil. Oportuno, até porque as prateleiras brasileiras estão repletas de livros fáceis.

***

Livro: Entropia

Editora: Record

Avaliação: Muito bom

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