Enquanto alguém voraz me observa

PARTE 1

Todo mundo deveria ler Juan José Arreola para entender a literatura fantástica, justamente porque não era esse o gênero que ele escrevia. Está dito, no entanto, para a afirmação ganhar o sentido devido, é preciso voltar ao ano de 1937.

Certa noite, reunidos numa sala iluminada apenas pela luz presencial de um abajur, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo conversavam sobre literatura fantástica. De maneira despretensiosa, quase recreativa, eles anotavam num caderninho pautado seus contos prediletos no gênero, lançando mão de um critério validado unicamente pelo cruzamento dos gostos pessoais. Pouco a pouco, a lista ganhava forma com a inclusão de títulos de breves narrativas de nomes como Lewis Carroll, Franz Kafka, James Joyce, Guy de Maupassant e H. G. Wells.

Casares assim explica a escalação:

Analisada sob um critério histórico ou geográfico, (a escolha) pareceria algo irregular. Não buscamos ou rechaçamos os nomes célebres. Era uma lista composta simplesmente pela reunião de textos da literatura fantástica que nos pareciam os melhores.

Três anos depois, numa aposta editorial inusitada, a tal lista do caderninho pautado tornou-se o sumário da mais representativa antologia de contos da literatura fantástica (para os mais devotos, a exemplo do resenhista que vos escreve, algo com a bíblia do gênero).

O êxito foi tamanho que, em 1965, o volume de contos ganhou uma reedição acrescida de textos de Julio Cortázar, Carlos Peralta e Elena Garro, entre outros. Essa versão foi lançada no Brasil, num projeto luxuoso da extinta Cosac Naify, mas ainda fácil de se encontrar.

Ocorre que, como na maioria das listas, o relevo da ausência é mais sensível que o da presença.

Casares, na introdução da nova versão, não se presta a justificar a exclusão de autores do quilate de Ambrose Bierce e E. T. Hoffman, mas alega, na linha seguinte, falta de espaço para abrigar demais nomes.

Seria esse o motivo da ausência de Juan José Arreola?

Nos anos 60, o escritor mexicano era figura de relevância no palco cultural latino-americano, editor da revista Mester e da coletânea Los presentes, para a qual teve em mãos os primeiros contos de Cortázar e nada menos que o original de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, além de já ter publicado o soberbo Confabulário (logo chegaremos nele). Seria, portanto, um caso deliberado ou imprevisto?

Voltando à antologia de 1940, Casares elenca algumas características para que um conto possa ser classificado como fantástico:

a. Explica-se pela ação de um ser ou de um feito sobrenatural.

b. Tem explicação fantástica, mas não sobrenatural.

c. Explica-se pela intervenção de um ser ou de um feito sobrenatural, mas insinua também a possibilidade de uma explicação natural.

Esforço-me a acreditar que a resposta esteja nesse último item. Embora sua prosa tenha demão do verniz fantástico, o eixo temático dos seus escritos não apreende nenhuma das naturezas supracitadas. Arreola escreve sobre os planos e os seres reais, sobre o que há de extraordinário na massa plástica que constitui a realidade. Tome-se, como exemplo, (agora, portanto) Confabulário.

Lançado originalmente em 1952, o volume é resultado de um longo esforço de condensação; uma poda, como escreveu o próprio autor, de tudo o que pode ser considerado supérfluo, com vistas a se classificar absoluto.

São 30 narrativas que imprimem o estilo singular de Arreola, combinando elementos mágicos e outros demasiadamente terrenos, com os quais se molda e se explora esse mundo particular (o mundo que conhecemos), através da mordacidade, do ludismo, da crítica social e, sobretudo, de uma sedutora liberdade inventiva.

Há, nesse terreno paginado, uma admirável técnica que deslumbra por ser breve, que resplandece por ser precisa. A mola contemplativa viaja a mando de um suntuoso colecionador de registros, de miradas minuciosas do comportamento humano diante do reino do sagrado (“Um pacto com o diabo”, “O convertido”, “O silêncio de Deus”) e do reino da metáfora, a exemplo de “O prodigioso miligrama”, sobre o império de formigas e sua derrocada, num incrível intertexto com a realidade política latino-americana, e de “Baby H. P.”, no qual crianças geram eletricidade.

“O rinoceronte” e “A aranha”, que mais tarde seriam incluídos no volume Bestiário, são perfis de animais, que demonstram uma disposição incansável para o exame mais agudo de seus aspectos particulares. Ao contrário dos unicórnios, das sereias, do Spider-master, dos centauros, das ninfas, das mancúspias e do Wülkh, dos cativeiros de Borges (O livro dos seres imaginários) e de Flanders (Bestiaire Fantastique), não configura, nessas criaturas, qualquer manifestação de sobrenaturalidade. As bestas de Arreola são potenciais atrações de um zoo municipal.

Mas quem é Juan José Arreola, de fato?

PARTE 2

Juan José Arreola é um autor imprescindível do século 20. O caso é que Arreola não é apenas um autor, é um estilo. Mestre da carpintaria do conto curto, um artesão dotado de uma prosa que pede contínua frequentação, após o início de sua primeira e assombrosa leitura.

Nascido em 1918, em Jalisco, México, Arreola nunca superou o ensino primário, aprendendo a ler “de ouvido” (convenço-me que seja lenda). Ainda adolescente foi trabalhar como encadernador, de onde extraiu a economia necessária para ir viver na Cidade do México, ingressando na Escola Teatral de Bellas Artes, em 1937. Lá integrou o grupo de teatro Poesia en voz alta, de onde recolheu entusiasmo para fundar as publicações Cuadernos y libros del unicornio, Mester, Los presentes e Pan, esta última em parceria com ninguém menos que Juan Rulfo.

Em 1941, publicou seu primeiro texto, Sueño de navidad. Quatro anos depois, ganhou uma bolsa para estudar em Paris, cujo distanciamento serviu de catalisador para seu estilo único de escrita, solidado em Varia invención, de 1949, uma colagem de prosa e poesia.

Com esse debute, conquistou o Prêmio Fundación Rockefeller. Em 1952, sua obra-cervical Confabulário recebeu a premiação Jalisco de Literatura, seguida do Prêmio do Festival Dramático do Instituto Nacional de Bellas Artes e o Prêmio Xavier Villaurrutia. Há um episódio que combina jocosidade e prestígio nesse período. Arreola viajou a Cuba a convite de Gabriel Garcia Márquez que, ao apresentá-lo a Fidel Castro, disse: “Quero que conheça Juan José Arreola, o escritor que mais gosto, depois de mim”.

Dando dois saltos temporais em sua biografia, em 1958, o escritor mexicano publicou Bestiário e, em 1963, sua primeira novela, La feria, uma sobreposição de vinhetas, lembranças, relatos e piadas acerca da imaginária cidade de Zaplotán, localizada em Jalisco, que muito lembra o condado de Yoknapatawphe, inventado por Faulkner, onde jaz o tronco familiar dos Compson. Todavia, a decisão mais acertada de Arreola foi ter reunido seus breves volumes, de 1941 a 1961, num tomo chamado de Confabulário total (ou Confabulario definitivo).

Esse é, sem dúvida, o zênite de sua criação. Composta pelos capítulos “Confabulário”, “Vária invenção”, “A hora de todos”, “Bestiário” e “Prosódia”, a obra é uma mescla de vários gêneros literários: o relato, o ensaio e a poesia, cujas influências vão de Kafka a Borges, de Baudelaire aos pensadores gregos. Arreola transforma a língua numa criação coletiva de um único indivíduo. Um mosaico conformado por apontamentos aforísticos, radiação poética, exercícios de ensaios e clímax súbito da narrativa romanesca.

Borges, certa vez, declarou que todos os escritores fazem apenas um livro na vida. Confabulário total é a prova concreta disso. Um universo incomparável, com contornos severamente polidos que, sob o respirar da leitura, parecem adquirir musicalidade.

Para a citação que introduz o livro, Arreola pinçou um verso do compatriota poeta modernista Carlos Pellicer: “… mudo contemplo enquanto alguém voraz me observa”. A iminência de algo insaciável talvez explique a obsessão do escritor em encontrar a página perfeita.

Mudos (e maravilhados), contemplamos Arreola.

***

Livro: Confabulário

Editora: Arte e Letra

Avaliação: Excelente

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