Pensamos, logo somos animais

Literatura e animalidade, da escritora e professora mineira Maria Esther Maciel, busca problematizar a relação entre homens e animais, jogando luz sobre critérios modernos que colocam a razão como instrumento de domínio.

De acordo com esses princípios, o antropocentrismo (o ser humano no centro do universo) esvaziaria o homem de sua animalidade, dando-lhe autoridade para subjugar o não humano por conta da impossibilidade deste de racionalizar seus atos.

A resistência à alteridade animal é, como ressalta a autora, uma forma radical de se negar o estado de besta, ainda que foi precisamente pela negação da animalidade que se forjou a definição de humano no mundo ocidental, “não obstante, como se sabe, a espécie humana seja fundamentalmente animal”.

Maciel segue, portanto, desse paradoxo para encontrar em pensadores, a exemplo de Michel de Montaigne e Jacques Derrida, argumentos que coloquem em xeque justamente o pressuposto de superioridade do homem em relação aos demais animais.

A razão, atributo exclusivo e diferencial da espécie humana, segundo Montaigne, seria “um instrumento que se molda de acordo com os usos”, de modo que discernimento, raciocínio e capacidade de aprendizagem também são próprias dos não humanos.

O filósofo faz referência à inteligência matemática dos cardumes de atum, ressaltando ainda o sistema de comunicação estabelecido entre os homens e os cães, através de atitudes próprias e pequenos gestos. É a materialização do que Derrida chamou de estatuto de sujeito, o animal sintonizado à alteridade humana.

A partir daí, o ensaio percorre, de maneira saborosa, obras ficcionais que privilegiam os animais como seres dotados de inteligência, sensibilidade e saberes sobre o mundo.

De Jorge Luis Borges a J. M. Coetzee, passando por Clarice Lispector e Guimarães Rosa, Maciel explora, de maneira analítica, contos e romances que se detêm a esse viés, começando por A metamorfose, de Franz Kafka, “um marco para o surgimento de uma linhagem literária voltada para os processos de identificação/entrecruzamento de humano e não humano”.

À poesia, reserva-se um capítulo único, pois, conforme atenta a autora, é através da subjetividade poética que o animal apresenta a visão própria do que existe e compõe o que chamamos de vida. Neste segmento, ganha peso o fabuloso poema “Um boi vê os homens”, de Carlos Drummond de Andrade, no qual o animal “rumina seu próprio saber sobre a espécie humana”.

(…) Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem/perdoar a agitação incômoda e o translúcido/vazio interior que os torna tão pobres e carecidos/de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme (…)

As páginas finais são ocupadas por uma entrevista com o professor francês Dominique Lestel, especialista em pesquisas sobre a questão animal. Reflexões sobre o vegetarianismo e o ato de comer carne cruzam-se com temas vistos no estudo, tal qual o pensamento ocidental sobre animalidade e o estatuto do humano.

No entanto, além do valor acadêmico, o que sobressai da leitura de Literatura e animalidade é o resgate, na memória afetiva, de momentos em que o leitor passou na companhia de um animal.

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Livro: Literatura e animalidade

Editora: Civilização Brasileira

Avaliação: Muito bom

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2 comentários sobre “Pensamos, logo somos animais

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