O balé de um corpo literário

Julia Wähmann propõe uma concriação entre literatura e dança em Cravos.

O breve romance é um esforço de articular à escrita a percepção e o movimento corporal, tendo como referência os espetáculos da companhia Tanztheater Wuppertal, da coreógrafa alemã Pina Bausch.

O efeito imediato está no estilo, que angaria uma plasticidade pela qual os gestos mais triviais encadeiam-se num tipo elegante de coreografia.

Daí irrompe uma linguagem que é escorregadia ao mesmo tempo que consistente, que oferece entendimentos muito além do que propositalmente suprime, que alcança uma tonalidade poética e resolve com destreza as transições temporais.

Wähmann permeia uma história de amor. Melhor dizendo, uma história de encontros e desencontros, de atração e desilusão.

De uma convergência de olhares numa mesa de bar, a narradora inicia um relacionamento intenso com um homem não nomeado, uma sequência de episódios atada a longos hiatos entre afastamentos e aproximações. Os entreatos são ocupados por divagações e observações sobre si.

(…) quando eu me levanto sem saber como, você tira do bolso uma flor, sorri ao perceber que ela está em frangalhos, gargalha me abraçando, me aperta, me cheira, me beija o pescoço, me conta de todas as suas vidas, trajetos e alegorias, devora um sanduíche, engole águas e cervejas, gesticula grande, me convida para um cinema, para uma performance, para um grupo de leitura de filosofia (…)

A flor em frangalhos é uma menção ao espetáculo “Nelken” (cravo, em alemão), criado por Pina, que a narradora assiste a certa altura. Todo o texto, de fato, é assaltado por referências que vão de David Bowie a Raymond Queneau, chegando a Tuffi, a filhote de elefante famosa pela fotografia (que ilustra a capa) em que se lança de um trem suspenso na cidade de Wuppertal, nos anos 50.

Assomada por elementos cognitivos, a trama, por vezes labirínticas, deixa pontas soltas para, num tipo de bailado a dois, encontrarem-se num instante futuro.

Assim, o calor carioca conecta-se ao frio alemão, gerando uma sintonia do Carnaval de rua para os anfiteatros europeus, através da diminuição de ritmo. Esta é a segunda parte, quando o relato torna-se mais individual, fazendo da narradora um duplo da autora, que revive suas memórias e emoções.

Em Degas dança desenho, o poeta francês Paul Valéry elege, a partir das pinturas de bailarinas do conterrâneo Edgar Degas, a dança como a manifestação suprema da arte. Cravos usa a história de um amor como palco para falar do amor pela mesma arte, suprema, em seu encantamento particular.

***

Livro: Cravos

Editora: Record

Avaliação: Bom

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