Um réquiem para a nova geração

“Eu sou o pó”, anuncia o narrador de Loja de conveniências, de Guilherme Smee. “O computador é minha ligação com o mundo que deixei para trás”.

As primeiras páginas desse breve romance deixam claro que a virtualidade é o que comanda os raros interesses do jovem personagem. Seja para ver em looping uma cena da atriz Naomi Watts com motivações onanistas, seja para passar horas num chat com usuários desconhecidos.

Um desses nicknames é o de uma hacker que, certa noite, invade seu computador e ordena que desça até o salão de festa do prédio, no exato instante em que, nas proximidades, ocorre uma batida policial. Lá, ele se depara com uma moça aos prantos. O nome dela é Heloísa, e o encontro às cegas é o gatilho para o desdobramento dessa relação que passa a sustentar a trama.

Heloísa chora pelo namorado Davo, um traficante de medicamentos controlados, que foge para não ser preso. Antes de partir, porém, ele delega a ela a tarefa de fazer do narrador um “projeto pessoal”, e este aceita “para que algo aconteça e o tire da inércia”.

O único desafio que se impõe é não se envolver emocionalmente com a garota, pois ainda dói o fim de um relacionamento recente.

Ocorre que, a partir de então, já não controla mais seus atos: a ela cabe decidir o que fará, onde e como. Quando Heloísa pede para beijá-la, ele acata pois não mais detém do poder de resistência. “Como tomar um remédio para uma doença que não temos e ainda acumular os efeitos colaterais”, compara.

Já neste ponto, salta aos olhos a boa técnica de Smee para a construção de tipos. As referências à cultura pop, que vão de Star Wars ao Mágico de Oz, são bem utilizadas para situar os agentes da história em seu tempo e, desse microcosmo, extrair elementos que irão pautar suas características físicas e subjetivas, ainda que sob a óptica não confiável do narrador.

A linguagem ágil e precisa nunca se perde em maneirismos, atuando sobretudo a serviço da exposição das cenas, tal qual no instante em que o protagonista ingere, pela primeira vez, um psicotrópico durante uma sessão de cinema. O autor oferece ao leitor uma experiência de níveis sensoriais, alternando e fundindo o que se passa na plateia ao que se passa na tela, na obtenção de um efeito, no mínimo, estimulante.

O projeto pessoal, que inicialmente seria o de desnaturação do narrador, torna-se um pacto entre este e Heloísa, regido por tensões sexuais e toxicomania. Decidem abrir a loja de conveniências do título, um modelo de bar que serve de fachada para a reativação do comércio ilegal de medicamentos, cujo lucro visa patrocinar o retorno de Davo.

Com o que não contavam, especialmente Heloísa, era a instauração de um sentimento mútuo aparentado com amor, que optam por chamar de simbiose. “Uma relação entre dois seres em que um se beneficia do outro.” E, ao explorar a carga de atração que une os personagens, o autor reposiciona novamente o eixo temático, fazendo do seu livro um tipo de estudo sobre vampirismo.

“Não que eu esteja amando Heloísa, mas já criei uma grande dependência dela para tudo”. Conforme explicam as narrativas vampirescas, o transformado carrega uma ligação irresistível para com quem o transformou, existindo para venerá-lo e satisfazer seus desejos.

O retorno de Davo reforçará esse elo de subordinações começado com Heloísa, depois transferido para o narrador que, por sua vez, absorve o que resta da vitalidade dos clientes, uma legião que vagueia em busca de alívios artificiais, alucinógenos, na mesma proporção em que eles buscam sensações hiperestésicas no atrito que irrompe do contato entre seus corpos.

“Eu sinto uma vontade, uma energia que nunca senti antes, eu sinto raiva e ao mesmo tempo excitação, eu sinto o amor de Heloísa, e sinto os lábios dela. É tudo culpa dela. É tudo culpa do Davo.” Uma relação clandestina, pois são clandestinos, da qual dependerá para manter sua vida de atividades obscuras, pois, lançado a luz, tal qual um vampiro, volta a ser o pó.

Na orelha do livro, assinada pelo escritor Bruno Azevêdo, é evocado um paralelo com o personagem Tyler Durden, do alegórico Clube da luta, contudo a natureza do enredo se irmana, decerto, a um dos mais subestimados romances do norte-americano Chuck Palahniuk, Canção de ninar.

Uma parábola mordaz sobre a sociedade moderna, frívola e perdida, que oculta sua vacuidade numa enxurrada de informações e possibilidades de contatos.

Algumas pessoas acham que ainda dirigem suas próprias vidas. Nós somos os possuídos. Somos todos assombrações e assombrados. Sempre há algo alienígena vivendo sua vida por nosso intermédio. Toda nossa vida não passa de um veículo para algo vir à Terra. Um espírito maligno. Uma teoria. Uma campanha de marketing. Uma estratégia política. Uma doutrina religiosa.

No caso dos personagens criados por Smee, um réquiem para uma geração grata por se autoconsumir, não se importando em liquidar a caminhada rumo a algum futuro.

***

Livro: Loja de conveniências

Editora: Não Editora

Avaliação: Bom

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