A árvore, a maçã e a serpente

Filhas de Eva, de Martha Mendonça, apresenta uma galeria de mulheres em estados alterados da vida ordinária. São 18 contos que, por meio do discurso direto ou do indireto, dão voz a personagens aferradas a dilemas, paixões, dramas e obsessões que, não raro, culminam em tragédias.

A jornalista e roteirista apropria-se do conhecimento do pecado original, explorando temas imantados pelo simbolismo que as mulheres injustamente herdaram. Vide “Eva”, conto que abre a coletânea e relata a desdita daquela que nasceu “da urgência da criação do mundo”.

Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era culpada. Pelo que houve e pelo que não houve; pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo. Ele – de letra maiúscula – e ele – de letra minúscula – esperam que eu seja, pela eternidade, um instrumento de sua ordem. Que eu obedeça, que eu aceite, que eu recue, que eu tema, que eu ceda, que eu entenda, que eu me dobre, triplique, multiplique… Mas há a árvore, a maçã e a serpente.

Tal inquietação dissemina-se em variações de pecados: a gula, a ira, a inveja, a luxúria, a vaidade. Mendonça especifica o mote de suas narrativas pelo título, com a clareza que os adjetivos dispõem. Assim é “Compulsiva”, sobre uma personagem que compensa seu “apocalipse existencial” com ingestões desbragadas de comida, e “Apressada”, que coloca uma publicitária num espiral de urgências que se desdobram em urgências maiores.

“Obcecada”, o maior e melhor conto, foca numa moça que espiona, pela janela do prédio vizinho, um rapaz e desenvolve por ele um vício afetivo, compartilhando um começo, depois um fim e depois um fim definitivo. “Catarina jamais contaria a Otávio que foram oito os anos em que ela o namorou sem que ele a namorasse. Nunca revelou as horas e horas que passou de pé, enroscada na persiana, assistindo à vida dele”.

Outras histórias esquadrinham, num grau menor de violência, a relação entre os sexos opostos, registrando circunstâncias de submissão e de desejo irresistível. Seja na condição de amante, de namorada ou de noiva, todas as protagonistas se lançam à busca de si no outro, na transfusão de sentimentos que quase nunca são compensados ou assimilados com plenitude pelo donatário.

“Ela, que tinha nome de flor, esperava, na verdade, dois homens. Mas até então lhe parecia que esperava um só. O outro era apenas aquele que lhe fazia sorrir ao chegar”, conta a narradora de “Namorada”, texto premiado em 2003, no concurso Contos do Rio, promovido pelo jornal O Globo.

A orelha traz a informação de que a autora é “uma das cabeças por trás do site Sensacionalista”, no entanto o leitor não deve esperar uma maratona de piadas e sacadas debochadas. Quando presente, o humor é sutil e bem apegado à linguagem coloquial e ágil de Mendonça, cuja plasticidade remete à leveza da crônica.

As Filhas de Eva são aquelas que desfilam com naturalidade pelas ruas, mas que carregam, em seus íntimos, o pedaço do fruto proibido.

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Livro: Filhas de Eva

Editora: Record

Avaliação: Bom

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