Um colosso sobre a miséria humana

A fome, do argentino Martín Caparrós, é um monumental ensaio, de mais de 700 páginas, que tem origem em experiências extraídas de situações e de encontros com homens, mulheres e crianças na condição mais brutal de miséria e de escassez de alimentos, a chamada hambruna.

O jornalista resgata passagens por Bangladesh, Níger, Madagascar, Argentina, Espanha e Estados Unidos, transitando de aldeias remotas a lixões, a fim de examinar a origem e a estrutura da fome, e trazer a lume verdades contraditórias que apontam que, muito mais que uma fatalidade geográfica ou climática, a fome é resultado de decisões burocráticas e de (in)ações políticas. “A questão não é a fome; são as pessoas”, sentencia.

Para comprovar tal tese, Caparrós interliga reflexões pessoais a um amplo esforço de pesquisa, recorrendo a estudos demográficos, análises geopolíticas e informações históricas e científicas, para desmascarar falácias sobre a ocorrência da fome extrema e denunciar mecanismos mundiais que se valem do controle sobre o alimento para exercer controle sobre a mão de obra, que usam a comida como meio de especulação financeira. “Governar é explorar a ignorância comum para explorar a sua própria”, atenta o autor, de forma magistral.

O retrato dessa desigualdade deliberada é algo dos mais chocantes. Países detentores de riquezas naturais que somam anualmente milhares de mortes em decorrência da inanição, números que revelam que nenhuma guerra matou mais que a fome.

Caparrós traça uma linha de investigação que persegue a culpa e menos os culpados; ainda que perdure um imoral senso coletivo de que os culpados pela fome são os famintos. O relato, desse modo, expõe a (má) conduta das religiões, o efeito real das campanhas de caridade e dos programas governamentais, o desperdício de alimentos por países que importam toneladas de grãos e outros produtos de países que não conseguem alimentar sua própria população.

“Como, caralho, conseguimos viver sabendo que acontecem essas coisas?”, é uma pergunta recorrente e sempre sem resposta.

Não por menos, estão nas interações e nas entrevistas a força e o impacto do livro. Em depoimentos de pessoas sem qualquer perspectiva de vida e, de uma forma cruel, resignadas; de famílias que contam apenas com o sustento de bolinhas feitas de pasta de milho; de uma mulher que acrescenta galhos e pedras à água fervente e dá a isso o nome de refeição; de mães que, num silêncio esmagador, assistem os filhos fenecerem.

“Deus me mandou este destino, então certamente o mereço. Para que haja gente feliz, alguns de nós temos de ser infelizes. Assim é a vida, sabe”, declara uma avó cujo neto acaba de morrer em consequência da desnutrição e não tem dinheiro sequer para voltar para casa e avisar os pais do menino.

Todos os anos, 3 milhões de crianças morrem por causa da fome ou de doenças relacionadas. Estima-se que, somando-se aos adultos, ocorram 25 mil mortes por dia, no mundo. Ou seja, se você, caro leitor, levou um minuto para ler essa resenha, saiba que 16 ou 20 pessoas acabam de morrer de fome. E segue agora a programação normal.

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Livro: A fome

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Excelente

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