Sonhos tatuados em pele de concreto

De todas as porções de delicadeza que constituem Compra-se sonho, de Katherine Funke, há uma secreta, que deveria caber unicamente ao resenhista e à escritora, mas que tomo a liberdade de torná-la pública, devido à sua força simbólica.

Está num pequeno bilhete que veio dentro do exemplar endereçado a mim, um trecho que atesta o compromisso (e a satisfação) da autora com o fazer literário mais que com a forma de publicação.

“Não almejo nenhum ‘status’ além de arrancar*, do leitor, alguma emoção. E ter leitores, claro. De resto, espero poder escrever enquanto for viva… e cada dia um pouco melhor”. (*proporcionar, promover, criar, catalisar…)

Pois não há como se relacionar com este livro-conto, de poucas 40 páginas, sem ser fisgado pelo que antecede seus limites internos.

O apuro do projeto gráfico assinado pelo arquiteto e desenhista digital Ricardo Ambus, que se vale da sutilidade para achar encanto. Da editoração, que interage parágrafos digitados com partes manuscritas, num efeito folheado de claro-escuro. Da produção que assume, acima de tudo, o desejo de existir.

O melhor é que a qualidade estética se transfere também para o teor literário. Partindo de um enredo que trata o onírico em diferentes dimensões, Katherine flerta com um realismo mágico que, de fato, dissolve-se numa poética de absurdo, de alguém que se alimenta (metaforicamente) dos sonhos dos outros para determinar (ou ratificar) a própria existência. Uma vida que espia dentro do universo de fantasia.

Tudo se passa numa construção, no centro histórico de Salvador, chamada Coatí, que abriga alguns animais de mesmo nome (quatis). Junto ao portão, há um sino de cobre velho e uma placa de madeira, com os dizeres: “Compra-se sonho. Veio vender? Bata o sino”. Circulando pela região, na companhia de uma amiga, a oferta chama atenção da narradora que toca o instrumento, mas ninguém a atende.

Certo dia, então, decide invadir o local e, durante a exploração, depara-se com um manual, com as seguintes informações: “Sua missão: tatuar os sonhos nas paredes: palavras em pele de concreto: cada milímetro”. Abaixo, um baú com uma máquina e pigmentos para tatuagem. Segue o texto: “No exterior, os mais discretos/nas entranhas, os mais estranhos/no salão, os mais selvagens,/ou mais à espera de redenção”.

Sem resistência, ela toma para si o encargo e passa a receber visitantes regulares, que vendem suas a(des)venturas oníricas, em troca de uma bebida que ela mesmo fabrica, uma espécie de cachaça forte e nutritiva. Com zelo, grava os relatos até preencher todas as paredes. Passam-se seis anos.

Khaterine trabalha bem o insólito na construção imediata de seu texto, mas também em seus ecos externos, sobretudo aquele relacionado à escrita, a esse ofício que cobra (muito) tempo e perseverança. Uma verdade bem representada na escolha da citação, uma frase do poeta uruguaio Lautréamont: “Se você não acredita, vá ver você mesmo”.

Ou seja, se você quer escrever e publicar, escreva e publique, não espere que alguém veja por você. Acredite, as grandes editoras não costumam comprar sonho.

***

Livro: Compra-se sonho

Editora: Músculozine

Avaliação: Bom

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