Uma enciclopédia de vidas imaginadas

Gosto de anedotas. Coisa de família. Gosto de anedotas curtas, dessas que duram o tempo da cerveja se derramar do gargalo para o copo. Tipo: “Por que os argentinos têm dificuldades para se casar? Porque não conseguem encontrar alguém que amem mais que a si mesmos”.

A literatura argentina tem, em sua história, um tipo de anedota secreta. Uma excentricidade que parece ter sentido apenas para eles, que se perpetua num estilo próprio e peculiar na antemão de uma piada interna.

Vejamos, por exemplo, Museu do romance da eterna, de Macedonio Fernández, um livro composto por prólogos de prólogos de um romance que nunca, de fato, toma-se partida. E o que dizer do hiperestésico O silencieiro, de Antonio Di Benedetto?

Podemos incluir ainda, nessa lista, Como me tornei freira, de César Aira, uma miscelânea de episódios e digressões que se encaminha para interpretações infinitas, e o mais recente Micróbios, coletânea litero-profilática de Diego Vecchio.

Em todas as obras supracitadas, a imanência é condicionada à presença ativa dessa estranheza ordinária, de uma atração insólita que nunca avança para um extraordinário absurdo e inexplicável, e sim fundamenta-se em preceitos científicos, religiosos e metafísicos.

Nesse mesmo contexto, enquadram-se os personagens de A sinagoga dos iconoclastas, de J. Rodolfo Wilcock. O título que (lamentavelmente) encerra a necessária coleção Otra Língua, capitaneada por Joca Reiners Terron, traz perfis de inventores, artistas, expedicionários, intelectuais e utopistas, consubstanciando a ficção a um nível em que a noção de realidade parece ser um aspecto não mais que circunstancial.

O primeiro deles é o do filipino José Valdés y Prom, conhecido por suas fabulosas faculdades telepáticas. De participações em partidas de xadrez com o uso da mente a longa distância, o médium vê seus “poderes” postos à prova num congresso sobre ciências ocultas, no qual decide “esmagar os participantes, sem mesmo sair de casa”.

Em seguida, está Jules Flamart que, 1964, publicou o romance-dicionário La Langue en action, cuja ideia era “compor um novo tipo de dicionário que unisse o útil ao aventuroso, trazendo, como qualquer outro vocabulário, definição e uso de cada entrada, no entanto, acompanhados não de prazerosas observações e divagações eruditas (…), mas, sim, de breves passagens narrativas concatenadas de modo que, findada a leitura, não só aprenda o leitor o uso correto de todas as palavras que compõem a língua, mas além disso se divirta seguindo o desenvolvimento intrincado de um acontecimento muito cativante e movimentado, como uma espécie de espionagem-pornográfica”. Exemplo: “Perspiration: transpiração lenta. Michel estava tomado de perspiration”.

Os breviários seguem com o cirurgião Charles Wentworth Littlefield, que conseguiu cristalizar o sal de cozinha em forma de frango e outros animais pequenos; o relojoeiro Absalon Amet, “precursor de uma parte não desprezível daquilo que depois viria a se chamar filosofia moderna”; Roger Babson, cujo objetivo declarado era o de descobrir uma substância capaz de isolar e anular a força da gravidade; o belga Henry Bucher, com habilidade de retroceder no tempo; e o inventor Socrates Scholfield, que patenteou um aparelho com o qual é possível provar a existência de Deus, num total de 36 tipos que, às raias da loucura ou da genialidade, afiliam-se por conta da esquisitice que pontua seus propósitos e incursões de vida.

Wilcock cria uma enciclopédia para debochar das enciclopédias, injetando um humor volátil em seus relatos, que ora é de uma fineza biliar contra os conceitos religiosos e científicos, ora de uma mordacidade que cobra a isenção do leitor. “A ideia de que a tartaruga seja um animal precioso, comparável, portanto, à mulher, hoje pode parecer arbitrária, mas era muito difundida por volta do fim do século XIX, quando era usada (a tartaruga) para fabricar pentes, óculos e tabaqueiras”.

O alvo principal, no entanto, é a Argentina, a pátria que abandonou insatisfeito com o governo peronista, vivendo na Itália até a morte. Sempre que pode, o autor espicaça seus compatriotas. “(…) precisava achar um irmão muito abastado em La Rioja, Argentina, mas por interseção fortuita de circunstâncias havia encontrado, ao contrário, um tio muito pobre, aliás, um mendigo, nos arredores de Toronto”.

Pensando bem, a própria trajetória de Wilcock poderia claramente constar como o 37º perfil. Da proximidade com Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo (com quem escreveu um romance e firmou um elo de amizade), foi tradutor, ainda em Buenos Aires, de Kafka, T. S. Eliot e Graham Greene, entre outros. Antes de partir em definitivo para a Europa, caçou todos os seus livros das livrarias argentinas, num ato de autodesaparição.

Já na Itália, abandonou a poesia e passou a se dedicar à prosa, compondo um tipo incomum de ficção que não se submetia a nenhum gênero. Foi amigo de Pasolini, chegando a atuar num de seus filmes. Passou seus últimos anos numa casa de campo, em condições de pobreza e afastado de meio intelectual, dedicando-se à traduções, para o italiano, de autores canônicos, a exemplo de Borges, James Joyce e Flaubert. Nesse tempo, após duas décadas no Velho Continente, fez o pedido de cidadania, o qual foi concedido um ano após sua morte.

Parece uma anedota que o próprio Wilcock faria, mas não é. Seria engraçado, caso não fosse trágico.

***

Livro: A sinagoga dos iconoclastas

Editora: Rocco

Avaliação: Bom

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