Meus encontros com B. Kucinski

Sempre tive comigo a certeza de que todos os autores que eu realmente gostaria de conhecer estavam mortos. Contudo, durante a Flip de 2014, eu participava da programação de debates do Sesc, e lá também figurava o jornalista e professor Bernardo Kucinski.

Dois anos antes, encaminhava-me para a mesma festa literária, quando li, durante a viagem, seu primeiro romance, K., relato sobre a busca de um pai pela filha desaparecida durante o regime militar. O livro me impactou profundamente e quis conhecer seu autor, pegar um autógrafo.

O encontro desdobrou-se em alguns e-mails, nos quais trocamos impressões sobre contos. Kucinski sempre se mostrou solícito e generoso. Desde então, tenho acompanhado com entusiasmo sua carreira literária. Escrevi sobre seus livros de ficção para sites e jornais.

Penso que minha aproximação com Kucinski se deu também por ele me lembrar o meu avô paterno, o Nonô. A mesma compleição, a mesma tez branca, o mesmo costume de usar boina. Minha avó morreu quando eu ainda era muito menino, portanto minhas visitas aos sábados eram para o meu avô. O caso é que ele nunca estava em casa. Sempre no bar ou pelas ruas. Ele pouco se relacionou com os filhos, que dizer comigo. Nossos encontros foram raros. Recordo-me do dia do meu casamento, em que me disse algumas palavras. Estava elegante, tinha alugado um terno.

Encontrei-me novamente com Kucinski, na última semana. Através da leitura de Os visitantes, sua novela recém-lançada. O tempo narrativo se situa meses após a publicação de K. e o narrador, o próprio Kucinski, mostra-se um autor inseguro e desolado pelo desprezo dado à sua obra pela imprensa. Confinado em seu apartamento, ele então começa a receber algumas visitas inesperadas. Uma senhora sobrevivente do Holocausto, a amiga de uma desaparecida política, um velho redator de tevê, a ex-esposa, o fantasma do pai num encontro onírico. No debate em que participou na Flip, Kucinski relatou que usou como matéria para seus livros muito do que ouviu na Comissão da Verdade. De certa maneira, esses são seus visitantes.

Todos confrontam o autor, apontando erros e fragilidades em passagens do seu romance; descrevendo consequências emocionais por este ter revelado verdades incômodas, inventado uma realidade a ponto de não parecer invenção. Ocorre que, ao invés de diminuir o livro, as reprovações o engrandece, expande, por meio dessas interações conflituosas, o caminho que leva até a verdade sobre o paradeiro de Ana Rosa, irmã de Kucinski, a quem se procura em K.. Isso acontece na parte final, diante das palavras suspeitas de um torturador dito arrependido, nas quais o autor opta por acreditar, não mais resistindo à duvida que o impulsionou a converter seu drama pessoal em literatura.

Meu avô teve câncer. Resistia ao tratamento, fugia das internações. Nosso último encontro foi num domingo de Dia dos Pais. Meu pai pediu para o visitarmos. Fui dirigindo, com meu irmão, no banco de trás, ainda muito menino. Meu avô estava sentado no sofá. Os olhos embaçados, a pele cinzenta. Não falou muito. Eu havia lhe comprado uma camisa polo branca e depositei o embrulho ao lado de suas pernas. Ele agradeceu. Fomos embora.

Dois dias depois, ele morreu. Não mais resistiu. Foi enterrado com a camisa polo branca que eu lhe dei.

***

Livro: Os visitantes

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Muito bom

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2 comentários sobre “Meus encontros com B. Kucinski

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