Diálogos com as influências

É sempre uma situação delicada decantar, de um texto literário, resíduos de outros textos e atestar se houve ali uma cópia ou uma homenagem. Na visão desse resenhista, a decisão parte da natureza do produto final. Se o autor tomou para si a matéria alheia e não criou algo diferenciado, minimamente particular, nada mais entregou que uma tentativa de plagiar o brilho de sua inspiração.

Em Insolitudes, Tiago Feijó se compromete a pegar emprestado a substância literária de escritores como Jorge Luis Borges, Edgar Allan Poe e Manuel Bandeira, para compor grande parte dos seus contos de estreia. Desde o estilo à preferência de tema, as narrativas claramente se mimetizam a formatos estabelecidos, evocando inclusive a participação didática do autor eleito. A sacada de Feijó – e, daí, o mérito – está no uso. Com habilidade e conhecimento do que tem em mãos, ele não procura ser igual, mas parecer igual. Estar ciente dessa diferença lhe rendeu o Prêmio Ideal Clube de Literatura.

Vejamos “A insólita morte de Ernesto Nestor”, conto que abre a coletânea e a primeira parte denominada “Insolitudes literárias”.

Um escritor, cuja sólida carreira e boas críticas não o impede de se sentir um autor mediano, transita por sua biblioteca à procura de inspiração. Quando a ideia finalmente vem, com a clarividência de ser aquela a sua obra capital, ele cata uma lauda e se debruça sobre a máquina de escrever, martelando as teclas com o furor de quem é comandado “pela aflição que o consome há anos”. À medida que a história vai ganhando forma, porém, invenção e realidade vão estreitando fronteiras, ao ponto de uma se conspirar contra a outra de maneira fatal.

A voz onisciente que conduz a narrativa deixa claro que o personagem irá morrer no fim. O mistério é como e, sobretudo, a forma pela qual a travessia será contada. O autor escolhe uma linguagem pesada, erudita, que causa resistência à primeira vista, contudo se explica ao ser alojada num contexto. Feijó emula o repertório fantástico de Borges, em seu teor melancólico e consistente, conseguindo, tal qual o autor argentino, entregar um final surpreendente. Um conto que parece ter feito êxodo do sumário de Ficções.

“Josés”, que vem em seguida, repete esse expediente, convocando elementos sobrenaturais. Um homem, amante de caminhadas noturnas, certo dia volta para casa e se depara com um sujeito sentado em seu sofá. A princípio, ele evita o confronto, até tomar coragem e descobrir que se trata do fantasma de José Saramago. O autor de Ensaio sobre a cegueira carece de mãos sólidas que escrevam seu próximo livro, e essa é a missão do protagonista. Novamente se valendo do espelhamento narrativo, Feijó constrói seus diálogos com o português clássico.

Fechando esse primeiro segmento, “Conto tirado de um poema” é a experiência de converter em prosa a história trágica de João Gostoso, contada em versos por Manuel Bandeira, em “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Aqui, a linguagem se torna mais coloquial e pontuada por artifícios líricos, trazendo substância para uma composição que se resolve em sete linhas. Uma releitura cujo valor está em esmiuçar o subentendido.

Na segunda parte, “Outras insolitudes”, as referências literárias seguem como motor temático, porém com menor predominância. No ótimo “O olho”, o vulto da inspiração se revela logo na primeira frase: “Ao despertar, após um incômodo sonho em que mirava seu próprio reflexo na água turva de uma bacia, o senhor F. topou com estranhas fraturas que rompiam o reboco da parede defronte à sua cama”. Já “O caso do cartão” e “Uma noite na vida do sr. Lameque” comungam o universo de Allan Poe, sugestionado nos próprios títulos.

Outros contos resultam do diálogo do autor consigo e, nas vezes em que se arrisca a beber de sua própria fonte, é quando Feijó se sai melhor. “Há uma gota de orvalho em cada criança” e “A morte e a pequena Ana” são olhares sobre a vida carregados de emoção, que se transformam em literatura de escala. A excelência, todavia, está no triste “Aqui, dentro de mim”, sobre uma mãe que recebe a notícia das mortes de seu filho e de sua nora atingidos por um raio. De maneira sutil e serena, a narrativa nasce de um drama real e culmina num comovente retrato do luto que, por si só, faz jus ao prêmio que toda a coletânea recebeu.

Como estreia, Insolitudes mostra um autor que toma a mão de seus mestres, mas que tem capacidade de caminhar sozinho.

***

Livro: Insolitudes

Editora: 7 Letras

Avaliação: Bom

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