Uma parábola da sociedade atual

Trustália é um lugarejo próspero no garimpo e na lavoura, cujo nome deriva do verbo inglês trust. O batismo ocorreu quando o grupo de fundadores, em suave convívio, percebeu o novo lugar como “a terra da confiança”.

No romance do escritor e compositor Magno Mello, esse estado de harmonia prevalece até o dia em que uma “estranha luz amarela vinda do céu” decai sobre o povoado.

O inexplicável episódio, que dura segundos, faz com que os habitantes ouçam os pensamentos uns dos outros, revelando desejos contidos, mentiras, traições e crimes. Trustália torna-se, desse modo, uma terra devassada pela corrupção dos valores morais, uma arena em que a trava racional é quebrada pela animália seletiva.

Investindo no apuro da linguagem e na fragmentação da forma, Mello constitui seu enredo através de cenas focadas nas atitudes e nas reflexões de vários personagens. Esse mosaico remonta a origem do povoado e dá corda ao presente posterior ao fenômeno, traçando um panorama de formação e declínio a partir do momento em que as máscaras usadas para a boa convivência vão ao chão.

Embora virtuosa, a vida coletiva é sedimentada sobre os preceitos “da força bruta e do direito divino”, controlados pelas mãos pesadas do Comandante e pela doutrina alentadora do Padre Antero. Enxergar rachaduras nesses alicerces é se dar conta de que nenhum poder é incontestável e nenhuma verdade é sagrada.

Mello cria uma instigante parábola da sociedade atual, valendo-se do insólito, do picaresco e de doses de erotismo e de romance, para tratar dos conflitos humanos. A que ponto a hipocrisia protege os relacionamentos, qual o limite para sermos honestos com que pensamos, com o que dizemos.

Da mesma forma, o livro propõe uma reflexão sobre as interações virtuais, a chancela do anonimato que possibilita e propaga manifestações de agressividade verbal, ideológica e, em alguns casos, física. Será que a radicalização está se instituindo como a nova regra de conduta? Que vivemos uma quase distopia?

A certa altura, a personagem Ariana, depois de um momento de carnalidade e gozo, divaga sobre o seu tempo. “Uma pequena tristeza escapava. Mesmo assim, era bom. Apenas o presente. E era tudo”.

Taí uma aceitação do vazio moderno que carrega, em si, um tanto de significado.

***

Livro: Trustália

Editora: Chiado

Avaliação: Muito bom

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