O romance que a memória procura

A norte-americana Lydia Davis foi laureada, em 2013, com o Man Booker Internacional Prize, pelo conjunto de sua obra formada preeminentemente por contos. O triunfo no gênero levou o compatriota Jonathan Franzen a descrevê-la como uma espécie de Proust de histórias curtas.

O fim da história, sua incursão na narrativa de longo fôlego, parece aludir à experiência da autora de transpor sua escrita para um território que não lhe é familiar. De maneira imprecisa, a voz feminina que conduz a trama tenta construir um romance a partir dos escombros de uma relação amorosa.

A memória é a matéria e a própria literatura. A narradora sem nome transita por esse terreno movediço, enquanto se atém à tradução de um livro que acaba por se infiltrar pelas lembranças. Traz a essa atmosfera enevoada uma densidade onírica e o que se lê é mais que uma tentativa de se escrever um romance, mas o romance em execução. O motor narrativo se alimenta do indefinido.

Desse modo, não se estabelece uma linha temporal, e sim encaixes de cenas semiapagadas. Por mais que se investigue a fundo o passado, a procura dá partida a um puzzle de lapsos e convicções, do qual não se consegue distinguir entre os espólios da realidade e da invenção. Sabe-se que seu amante perdido é um poeta diletante, 13 anos mais jovem, porém lhe escapa o tom de seus cabelos, o feitio do rosto que busca reconstruir a partir de traços da fisionomia de outros homens. O que conserva desses dias está distendido em lacunas, que preenche (in)voluntariamente com ficção.

“Às vezes a verdade parece ser suficiente, desde que eu a comprima e a rearranje um pouco. Outras vezes não parece bastar, mas eu não estou disposta a inventar muito. A maioria das coisas se mantém como era. Talvez eu não consiga pensar em algo para pôr no lugar de verdade. Talvez eu só tenha uma imaginação fraca (…) Várias vezes me senti tentada a desistir”, confidencia.

O caso é que desistir de contar a história é divorciar-se de vez dos fatos. E a narradora toma justamente uma rota contrária, avançando do reavivamento de uma paixão a um comportamento obsessivo. Embora casada e às voltas com a assistência do sogro doente, respira os rastros do amante, voltando ao prédio onde morava, ao trabalho, andando a esmo pelas ruas e ficando alerta a todo momento que avista um carro da cor do dele.

“Ainda assim, quando eu partia à sua procura eu mesmo era passiva, mais passiva, na verdade, do que se não fizesse nada, porque eu estava tentando me colocar de novo nas mãos dele, ser algo com que ele tinha de lidar. Não fazer nada em relação a ele seria a coisa mais ativa a fazer, e, no entanto, eu não era capaz de fazer isso”.

Davis empreende uma imersão nas angústias de uma mulher traída pelos próprios desejos, pela negação de um destino sobre o qual não pode se impor. O tom inflexivo ilustra a dicção de uma autora magnífica, detentora de um apuro extremo verbalizado em delicadeza, muito bem conversado pela bela tradução do Julián Fuks. Um romance que nasce de um fim, mas não comporta, em seus limites paginados, um desfecho determinante. Parece fazer valer aquela máxima de que a vida é um livro aberto.

***

Livro: O fim da história

Editora: José Olympio

Avaliação: Excelente

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