Havana para um infante defunto

Corpos divinos, do cubano Guillermo Cabrera Infante, não responde a nenhum gênero literário. A definição mais aproximada seria a de um livro de memórias formuladas num plano ficcional. O próprio autor confessou que tentara escrever um romance e saiu uma biografia velada. Seja como for, órfã de classificação ou rótulo, a obra é um calhamaço de seiscentas páginas que parte de uma história pessoal para erguer um rico painel social de um país prestes a sofrer uma radical transformação política, e aquilo que se tornou após a instalação do novo regime.

O relato, conduzido por uma voz ciente que não pode ser outra senão a do escritor, tem início em 1957, dois anos antes da Revolução Cubana, quando ocorreu a queda da ditadura de Fulgencio Batista e a iniciação da ditadura castrista. Infante foi um apoiador dos revolucionários (e, no livro, há várias passagens em que revive suas participações em ações clandestinas), porém, quando se deu conta de que Fidel e companhia traíam os próprios ideias, exilou-se em Londres, em 1965, onde viveu até a sua morte em 2005. O que lemos é a última versão de uma obra manuscrita por décadas em cadernos e folhas soltas, mas coligida a partir de orientações do autor. Um testemunho que, como alerta, reconstitui uma história de verdade, na qual todos os personagens (e seus nomes) são reais. “Apenas o livro é fictício”, considera.

Então, passeamos pelas ruas policromáticas de Havana, quando o narrador, um jornalista da revista Carteles, avista Elena, uma jovem de 17 anos, por quem se apaixona de maneira fulminante. Ele é casado, tem uma filha, contudo isso não o impede de dar continuidade ao relacionamento proibido. Elena, que já tinha aparecido na novela A ninfa inconstante, vive em divergência com a mãe, então decide sair de casa e começam a dividir um quarto de hotel. Ali ele descobre que ela é virgem e esse passa a ser, no correr dos dias, um elemento de tensão.

Infante se utiliza de um humor irônico, por vezes absurdo, para vincular as conturbações sociais às turbulências de uma paixão desmedida, tomada por um erotismo cujo cerne magnético atrai referências musicais, literárias e cinematográficas. Essa crônica errante irá criar passagens deliciosas, a exemplo de quando o narrador pede abrigo para a amante na casa da cunhada e as duas acabam ficando amigas, discutindo decisões que cabiam apenas a ele. O esfriamento da relação fará com que volte com a esposa, ainda que não compreenda como ela pode aceitá-lo. “A única explicação possível é essa forma de escravidão que é o amor unilateral”, conclui. Por isso mesmo não se intimida a logo se lançar em mais uma aventura amorosa.

O sexo, em seu simbolismo revolucionário, mobiliza a primeira parte, reservando os acontecimentos políticos à interposições, às raias de situações em que o autor circula pelo ambiente profissional, tomando parte em discussões que envolvem a revista. Os fatos que chegam à redação levam à histórias de gente que esconde gente, desaparecimentos e frentes de guerrilha contra o governo Batista. Infante não esconde sua atuação (ainda que lateral) nesse momento crucial da história cubana, aumentando a voltagem do teor político à medida que a tensão sexual arrefece. Há, no avançar das páginas, uma substituição de textura do que era pano de fundo e gradualmente desloca-se para o primeiro plano.

A esse tempo, em que as forças revolucionárias de las sierras avançam contra a ditadura agonizante, o coração do narrador palpita por Ella, cujo verdadeiro nome o livro omite, mas, nos bastidores, consta ser o da atriz Míriam Gómez, com que foi casado desde o exílio. Entre Elena, a ninfa, e Ella, a “garota alta e febril e vertiginosa”, há outras mulheres com quem dança e se enamora, embalados pelos ritmos salteados pelas rádios, em especial, o jazz. Mas a Ella, ele diz “Te amo”, embora não seja correspondido. O motivo é novamente um dos mais óbvios, ainda que, para o narrador, gere um ruído. “Ella sabia que minha mulher estava grávida e foi uma das coisas que trouxe à baila quando explicou por que não queria me ver mais, e eu entendi seu ponto de vista: eu não estava disposto a me divorciar e ela soube disso sem que eu o dissesse”.

Esse timbre meio descompensado é o que o leva, ainda na reverberação dos fatos que alça Fidel ao poder, à direção da revista de cultura do Revolución, jornal oficial do regime comunista, e, mais a frente, a compor a delegação do novo governante em sua primeira viagem internacional, aos Estados Unidos, ao Canadá e à Americana Latina, incluindo o Brasil, em circunstâncias dignas dos filmes dos Irmãos Marx. De fato, no que tange os inestimáveis valores históricos e memorialistas, os melhores momentos do livro são os flagrantes de personagens ilustres, como Che Guevara, Alec Guinness e o próprio Fidel. Nenhum deles se equivale, porém, ao nível de mordacidade direcionado aos encontros com Hemingway. O “Papa” figura em histórias hilárias temperadas com as mais ferinas e anedóticas observações. “Pensou ter descoberto Havana e apenas descreveu essa pracinha”. Com menos de dez palavras, Infante derruba um mito.

Corpos divinos, de fato, é isso: um amplo mosaico de observações, memórias e recortes históricos unidos com uma argamassa ficcional. Um livro infrequente, recheado de histórias que não se completam e personagens que somem sem explicação, mas que se torna esplêndido em virtude da escrita elegante, envolvente e lúcida de Infante que, há 40 anos longe de Cuba, reconstitui com impressionante detalhismo as ruas, as pessoas, a história de um país. O que lemos, afinal, é a Cuba que sempre esteve dentro dele.

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Livro: Corpos divinos

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Muito bom

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