Completa poesia mortiça dos Anjos

A certa altura da entrevista concedida, em 2014, à Revista do Livro da Biblioteca Nacional, o poeta Ferreira Gullar remonta seu tempo de exílio, transitando de Moscou para o Chile e, em seguida, para o Peru. Foi naquele país, ele se recorda, que conheceu e ficou muito amigo do antropólogo Darcy Ribeiro, a quem convenceu sobre as qualidades dos poemas de Augusto dos Anjos.

O feito, prossegue, teria um resultado auspicioso, meses depois num almoço com um editor brasileiro, no qual Ribeiro, interessado num polpudo adiantamento, mentiria que Gullar estaria escrevendo um livro sobre dos Anjos. O autor maranhense retrata, assim, a situação: “Eu não ia receber o dinheiro e não fazer o livro. Eu sabia muitos poemas de cor, conhecia a história dele, então fui para a Biblioteca de Lima e comecei a tomar notas. (…) Fui lendo essas coisas e, depois, quando já estava em Buenos Aires, a Thereza (*esposa) me levou outros livros que pedi e acabei de escrever”.

Intitulado “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, o estudo crítico, finalizado em 1975, faz as vezes agora de prefácio para Toda poesia de Augusto dos Anjos, antologia poética que abrange os 58 poemas integrantes de Eu, primeira e única publicação do poeta paraibano, além de versos escritos entre 1900 e 1914, nunca recolhidos em livro, alguns cujas composições datam meses anteriores à sua morte.

Gullar traça uma linha cronológica, que parte do nascimento no Engenho do Pau D’Arco e segue pela infância, onde as primeiras relações com uma vida marcada por diversos graus de decadência iria ter um impacto inestimável em seus versos.

Das ruas do Recife, o olhar poético se embrenha pelo ranço do cotidiano de tuberculosos, bêbados e putas, alcançando o grau de alucinação daquele que “caminha e ouve, dentro da noite, o apelo de todas essas criaturas, e também dos seres microscópios, dos germes, das montanhas, que lhe pedem para falar por eles”. Um ponto do universo e do tempo em que o poeta questiona e sofre o mistério da existência. “Jamais, antes dele, na poesia brasileira, essa indagação se fizera em tal nível de urgência existencial e de expressão poética”, chama atenção Gullar.

O ensaio avança pela repercussão do Eu, recebido à época como algo de “mau gosto”, contrariando as críticas negativas e dimensionando o valor de seus versos frente ao contexto literário do tempo em que foi lançado. Era um período em que o parnasianismo e o simbolismo eram as duas tendências atuantes na poesia brasileira. Contudo, dos Anjos não se filia a nenhuma delas. Estabelece-se num meio-termo. “Do parnasianismo, Augusto herdou, sobretudo, o versos conciso, o ritmo tenso e a tendência ao prosaico e ao filosofante; do simbolismo, além do gosto por palavras-símbolo com maiúscula, o recurso da aliteração e certos valores fonéticos e melódicos”, define.

Tal ruptura se reforça na própria postura do poeta paraibano, que chegou a afirmar, na ocasião, que no ambiente literário imperava a futilidade, o predomínio de uma literatura chamada de “sorriso da sociedade”. Apesar de também beber da erudição que refletia a lição dos clássicos, como aponta Gullar, na poesia de dos Anjos “a realidade explode aqui e ali na linguagem rude e às vezes incontrolada, mas viva quase sempre”.

“Não conheço nenhum outro poeta brasileiro, anterior a Augusto dos Anjos, que, a fim de exprimir a experiência concreta vivida, tenha de tal modo abandonado os recursos literários usuais, dado costas aos canais prontos da metáfora prestigiosa”, salienta.

O relato se abre, então, para uma análise social do Brasil do começo do século XX, de onde surge obras como Os sertões, de Euclides da Cunha, traçando, desse panorama, uma linha extraterritorial que coloca a poesia de dos Anjos no âmbito do novo, ao demonstrar uma atitude radical que rompe com as convenções verbais e sociais do gênero. Um estilo que intenta ser concreto, mobilizado pela complexidade do real que procura abranger, em seu universo verbal influenciado pelo vocabulário científico e filosófico, uma coerência baseada na qualidade estética e na profundidade da visão.

“Augusto se alimenta da podridão, dos vermes, da noite, do luto, do carvão, dos signos zodiacais, da superstição (…) O mortos de Augusto apodrecem e fedem”, conclui Gullar, diante de poemas de expressividade simbólica, a exemplo de “Versos íntimos”

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

Como observa o professor Ivan Junqueira no artigo “Os cem anos do Eu” (2012), que integra a coletânea Reflexos do sol-posto, a insólita contemporaneidade do Eu dispensa qualquer vínculo com eventuais momentos históricos do passado ou com sua própria época. Vale, afinal, por sua desconcertante e monstruosa beleza ou pelo horror que infunde. Um livro que excede o centenário de sua primeira edição e, venturosamente, “insiste em não morrer”.

***

Livro: Toda poesia de Augusto dos Anjos

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito bom

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