Um olhar poético sobre o passado

Em Autobiografia poética e outros textos, Ferreira Gullar revista o passado por meio do fazer poético. O autor maranhense perscruta, na inflexão de um relato de memórias, o momento-chave em que deixou de ser José Ribamar Ferreira para dar início à carreira de militância na escrita e de consagrações. “A literatura só terá sentido se mudar alguma coisa, nem que seja a minha própria vida”, conclui.

Falando consigo, Gullar empreende um diálogo confessional com o leitor. Retorna aos idos da infância, reencontrado o menino cujo primeiro contato com a poesia se dá através da Gramática expositiva, de Eduardo Carlos Pereira, cuja final se desdobrava numa pequena antologia composta por versos de Camões a Castro Alves. “Não sei bem que impressão aqueles poemas me causaram, mas a verdade é que me interessei por eles e procurei ler outros versos daqueles poetas”, relembra.

O novo interesse, portanto, começa a mudar o seu próprio comportamento, percebido, com reticência, pelos seus próprios familiares. “A verdade é que Dodô, meu irmão mais velho, veio me perguntar, preocupado, se eu de fato pretendia ser poeta. Respondi que sim, e ele então me alertou para o perigo que poderia correr, uma vez que os poetas em geral enlouqueciam (…)”, conta.

Contudo foi justamente através de sua irmã que conheceu o poeta Manuel Sobrinho, que lhe introduziu na cena literária local e ampliou seu horizonte poético, apresentando-lhe aos versos de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Em seguida, vieram os portugueses Fernando Pessoa e Vitorino Nemésio. Porém, foi com a compra de um volume de contos mofado do alemão E.T.A. Hoffmann que percebeu em si o despertar de uma necessidade de atribuir ao trabalho poético uma significação maior que o simples interesse literário.

“Pode ser que, então, tenha tomado consciência da importância que a literatura deveria exercer em minha vida. Não significa que, naquele momento, haja descoberto o rumo que deveria imprimir a ela, e sim tão somente, que me entregar à poesia seria o meu destino. Era como se, até então, escrever poemas fosse o exercício de certo talento que trouxera do berço; agora, tornar-se-ia o verdadeiro sentido da vida. Mas, que poesia fazer, isso eu não sabia”, afirma, diante de Um pouco acima do chão, seu primeiro livro lançado, que considera imaturo, detentor de “um otimismo ingênuo”.

A poesia com a qual buscava identidade, que iria determinar seu futuro, surgiria, então, com a descoberta de Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. “A leitura desses poemas foi para mim uma revelação do que era a verdadeira poesia”. Gullar se certifica de que ali se instalara um processo de reflexão que teria uma influência direta na concepção de A luta corporal, o qual considera sua verdadeira estreia.

Tal verve de conversão literária coincide com sua mudança para o Rio de Janeiro, à convite da escritora Lucy Teixeira. Em novos ares, Gullar presencia o exato momento em que a arte concreta propõe a ruptura com a tradição modernista surgida em 1920. Aproxima-se do teatro e da imprensa, passa a trabalhar em redação. Tais experiências com uma cultura em plena transformação acabam por influenciar sua produção literária e sua persona. “Afirmei que a linguagem teria que nascer ao mesmo tempo que o poema, mas não dei um passo sequer nessa direção. Tenho me enganado, evitado enfrentar o problema, mas isso acabou. A partir de agora, ou avanço naquela direção ou paro de escrever”, sentenciou.

Um dos resultados desse caloroso acontecimento contra a própria obra é um de seus mais consagrados trabalhos, o livro-poema O formigueiro, em que combina discurso com sintaxe visual. O poeta maranhense se entrega a uma tarefa de se auto reconhecer um escritor em multifário exercício, cuja criação não parte de nada planejado ou em plena consciência, mas de percepções de dificuldades e de descobertas. Dessa circunstância, por exemplo, que surge “Poema sujo”, época em que Gullar encontrava-se em exílio político. “Ao pensar em escrever aquele poema – na noite em que me veio o ímpeto de escrevê-lo – imaginei começá-lo com uma espécie de vômito do vivido”.

A realidade que traz dentro de si não passa a ser, tampouco, apenas a existência natural, e sim muitos dos fatores e inspirações que o fizeram, de poema a poema, entender-se como um ser poético. Seja na atuação política, nos rastilhos dos encontros com nomes como Augusto de Campos, Oswaldo de Andrade e Otto Lara Rezende, na convicção de que, apesar de viva, “a memória é um mistério”. Um que não está aliado à urgência do tempo.

“Demoro a publicar livros de poemas porque escrevo pouco, e escrevo pouco porque só o faço movido pelo que chamo de espanto”, justifica-se.

Outros textos

Findada a autobiografia poética, o livro cede espaço para os chamados “outros textos”. Esses são compostos pelo “Manifesto neoconcreto”, “Entrevistas” e “Textos sobre poetas”, este último completado em ensaios sobre Rimbaud (que, diga-se de passagem, reforça o quanto O regresso, de Lúcia Bettencourt, é um ótimo romance), Fernando Pessoa e o grande peruano César Vallejo. São análises que se deslocam da biografia à bibliografia, atentando para a relação dos autores com seus versos e quanto isso acaba por referendar ligações com os cânones literários e o vulto geracional.

As duas breves entrevistas, por sua vez, trazem a sensação de revisitar caminhos trilhados durante a autobiografia. Enquanto “O poeta fala de poesia”, realizada em 1965, toca em aspectos mais subjetivos (“Para que serve a poesia?/O que acha da inspiração e por que escreve poesia?), “As bibliotecas do poeta”, concedida em 2014, faz novamente um sobrevoo pela memória afetiva e literária de Gullar.

De fato, seja analisando o outro ou a si mesmo, o poeta busca, na vida e na obra particular, uma maneira de se encontrar no caos mundano. Lançar-se nessa empreitada parte do mesmo esforço de, enfim, tentar responder: o que é o espanto que faz nascer o poema? Segundo relata, “é a súbita constatação de que o mundo não está explicado e, por isso, a cada momento, nos põe diante de seu invencível mistério”.

“Tentar expressá-lo é a pretensão do poeta”, confessa, aos 85 anos. Que fique de lição, portanto, para todos aqueles que se achem prontos!

***

Livro: Autobiografia poética e outros textos

Editora: Autêntica

Avaliação: Muito bom

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