Formas de se contar uma história

A angústia da relevância, de Leandro Jardim, conta a história de um amor contemporâneo através de transições que abarcam da prosa poética à dramaturgia. O escritor e compositor carioca parte do conceito dissonante entre forma e conteúdo, para oferecer ao leitor uma experiência visual na qual a ficção é o veículo para se problematizar a liberdade do fazer literário.

O narrador que, logo na primeira frase esclarece que, “embora use a voz em primeira pessoa, nada daquilo aconteceu consigo”, é uma espécie de alter ego do autor que conhece, numa mesa de bar, um sujeito embriagado, cuspindo rimas, que lhe relata “a angústia de suas peripécias”. O papo se prolonga e, em dado momento, o novo amigo diz que vai em casa pegar as provas do que diz. Volta “cheio de papéis, poemas, prosinhas musicais e afins”. Sobre esses fragmentos que a trama se sustenta; no que trazem de realidade e de versões ficcionadas do real.

O sujeito chama-se Joaquim, um poeta diletante que abusa dos estímulos etílicos como forma de inspiração. Gosta de circular pelo centro da cidade, pelas mesas dos bares e frequentar livrarias. Certo dia, numa galeria de informática, conhece Inês, uma blogueira de estilo ácido e melancólico, e engatam um namoro que mais funciona para estimular suas criatividades. Do gozo às dissidências, tudo vira material para literatura.

Desse modo, prosa e poesia se interpõem entre capítulos, entre parágrafos. O relacionamento vai se desenrolando não apenas por meio do discurso direto, mas na aparição de poemas que refletem a voltagem das circunstâncias. O narrador, onisciente, vale-se de notas de rodapé para situar o leitor sobre o sentido do que passou e qual a importância daquele fragmento em versos para a história. Empreende-se, portanto, um exercício de metaficção.

Jardim edifica seu alicerce narrativo no movediço, na possibilidade descompassada de se estruturar um enredo. E o faz bem, sobretudo na escolha de contaminar um gênero com o outro. Em suas descrições incorrem o lirismo canhestro de seu protagonista, a maneira desbragada com que Inês percebe a vida e a deposita em suas postagens. Isso reforça a sensação de experiência, de que a história é, de fato, a construção da história.

Tal entendimento fica mais claro, próximo aos capítulos finais, quando a ficção se curva para um pequeno ensaio sobre a criação artística frente ao valor estético, na qual se busca referência na crônica “A muralha e os livros”, em que Jorge Luis Borges, citando o crítico inglês Walter Pater, coloca que “todas as artes aspiram à condição de música, que não é senão a forma”.

Talvez seja esta, de fato, a melhor descrição para A angústia da relevância, uma forma de música. Uma música estranha, mas definitivamente original, que embala suas páginas na audácia do autor.

***

Livro: A angústia da relevância

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Bom

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s