Um tributo ao gênero fantástico

No ano em que se comemora o centenário do mineiro Murilo Rubião, Sr. Bergier & outras histórias, volume de contos de Anderson Fonseca, brande uma qualidade literária à altura do aspecto fantástico no qual triunfou o autor de “Teleco, o coelhinho” e “O pirotécnico Zacarias”.

Em 11 narrativas de maior e de menor extensões, o carioca radicado no Ceará demonstra domínio sobre o desenvolvimento de seus enredos, que ocorre na contaminação do real pelo sobrenatural. Fonseca alcança, em sua tessitura artística, o efeito do primeiro encontro com uma normalidade aparente, cujo esfarelamento provoca o abalo das modalidades naturais, o enfrentamento do inexplicável.

Tal procedimento dá as caras logo no primeiro conto, que empresta nome ao livro. A narrativa, estruturada em formato epistolar, descreve a desgraça de um homem que desenvolve um experimento de onde materializa um duplo de si, uma versão antagônica (um doppelgänger) que lhe vampiriza a energia à medida que assume maliciosamente seu posto social.

Essa breve descrição já estabelece conexões com histórias famosas do gênero (de Arthur Machen à Robert Louis Stevenson, de Oscar Wilde ao próprio Rubião de “O homem do boné cinzento”), demonstrando a dimensão do olhar afetivo com que o autor vasculha e excursiona pelo fantástico visionário, pela ficção científica, pelo horror compulsório e pela substância cósmica.

Não há, assim, um tributo somente, e sim novos quadros que se acomodam numa moldura clássica. Os contos trazem não só incidências do universo sobrenatural, mas capturam nuances e elementos específicos de obras exemplares. Em “O presente de Evaristo”, que emula o clima das histórias extraordinárias de Poe, um homem se vinga de uma cidade com um esquadrão de corvos.

A seguir, uma incursão onírica tem como desfecho um assassinato (“O sonho”), ao passo em que “O bibliotecário”, sobre um homem que se percebe consumido pelos livros, pelo trabalho, parece fazer alusão à uma frase marcante de “O ex-mágico da taberna Minhota”, de Rubião, “ser funcionário público é suicidar-se aos poucos”. Aliás, há outros aspectos que vão além da matéria literária, como a presença de epígrafes bíblicas no cabeçalho das páginas, uso característico dos contos do autor mineiro.

No plano narrativo, Fonseca exerce um notável o apuro para com a eleição das palavras, o lento refinamento do texto para se alcançar o resultado clarificado. Uma disposição que redunda numa prosa fluente, enxuta e impregnada de lirismo expondo a própria carpintaria do conto.

Prova disso é o brevíssimo (e precioso) “Pétala”, que encerra a antologia, onde a tragicidade é envolvida por uma atmosfera de delicadeza que muito lembra o lado prosador de Fernando Pessoa. Evocando Julio Cortázar, outro papa do gênero, o conto fantástico arrebata em baixa voltagem.

“O fantástico força uma crosta aparente, e por isso lembra o ponto vélico; há algo que encosta o ombro para nos tirar dos eixos. Sempre soube que as grandes surpresas nos esperam ali onde tivermos aprendido por fim a não nos surpreender com nada, entendendo por isto não nos escandalizarmos diante das rupturas da ordem. Os únicos que creem verdadeiramente nos fantasmas são os próprios fantasmas”, escreve o autor argentino em “Valise de cronópios”, configurando o encontro com o sobrenatural.

A exemplo de Cortázar, Fonseca mostra que não é preciso ter medo da literatura fantástica; é preciso talento. E, nesse quesito, Sr. Bergier & outras histórias se sai muito bem, da carpintaria linguística à coesão temática.

***

Livro: Sr. Bergier & outras histórias

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s