Contos travestidos de romances

Ter saudade era bom, de Moema Vilela, é resultado de uma complexa tessitura literária, capaz de acomodar, na forma breve, a densidade do romance.

O poder das narrativas da jovem autora sul-mato-grossense está em suas construções. Na habilidade com que elabora o plano principal, deixando-o acessível à incidência de outras histórias, de modo a atingir o efeito plurinucleado de tramas que compartimentam tramas.

Recorrendo à uma analogia, é a sensação de se caminhar por uma estrada flanqueada por lâminas de uma cerca, cujas frestas possibilitam a visão restrita de outros cenários que carecem da imaginação para se expandir.

O leitor, de fato, parece embarcar numa história já em curso, que vai desvelando momentos pretéritos e futuros sem esgotá-los ou iluminar suas áreas por completo. Tudo é aberto, multifário e insinuante; o que é fantástico!

A começar por ser uma antologia que dispensa a coesão temática, a unidade entre os contos que a compõem. Não há dever algum, afinal. Seja com o gênero, com a linearidade da prosa, com o efeito linguístico. A literatura basta, para Moema; exercitá-la. É o início, o meio e o fim, livres de ordem.

O mesmo caráter indistinto vale para as influências. Há um quê de Raymond Carver, de Clarice Lispector, de John Cheveer, de Thomas Pynchon, de Alice Munro. Estão no alicerce, no acabamento, nos cacos de outras histórias, nas menções. O autor e o livro são a soma dessas singularidades estéticas, que conformam um mosaico mutável onde coexistem relações familiares, conflitos humanos, tragicomédia, nonsense, relatos factuais.

“Fotografias”, por exemplo, emula uma aliança entre história e ficção, ao rememorar o drama vivido pelos chilenos soterrados no acidente da mina de San José, em 2010. A mesma intenção de esbarrar na realidade embala “Quando você volta?” e “Os desaparecidos de Zhelaniea”, que evoca fantasmas da ditadura militar. Já “Com carinho e sinceridade, muitos beijos e beijinhos”, em sua estrutura simples constituída por trocas de e-mails, evidencia a capacidade da autora de construir e de distinguir personagens apenas pela flexão da linguagem.

No meio do livro, então, está o conto que mais se diferencia do conjunto, ainda que concentre o espírito criativo da antologia. “A reconstrução” é uma ode às narrativas de ficção científica, interligando elementos sensoriais, distopia e fluxos oníricos num estudo da perda e da melancolia. A busca é pelo intangível, um tempo que os dedos tentam arrastar o tecido, porém não se move, pois é espesso demais, complexo.

Como afirmou, certa vez, Alice Munro: “A complexidade das coisas — coisas dentro de coisas — simplesmente parece sem fim. Nada é fácil, nada é simples”. E isso não é mau, quando se refere à manufatura das palavras com perícia artística, ao domínio técnico em prol de uma literatura original. Ter saudade era bom é prova disso, seus contos com densidade romanesca são.

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Livro: Ter saudade era bom

Editora: Dublinense

Avaliação: Muito bom

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