A crueldade do mundo das crianças

Um dos grandes desafios de um autor estreante é encontrar uma voz. Verena Cavalcante busca a sua nos idos da infância.

Larva, coletânea composta de oito contos, acomoda um micro arquivo de depoimentos estabelecidos através da distorção do olhar pueril. São relatos que escapam do primeiro estágio edulcorado, dos sonhos, das fantasias e da pureza, e se tensionam numa escalada de perversões, sordidez, crueldades e violações impensáveis para um princípio de vida. Não se trata de terrores infantis, mas de terrores protagonizados pelas crianças.

“Às vezes é uma bosta ser criança, porque todo adulto acha que manda em você – e você tem que obedecer tudo o que o adulto quer que você faça, só porque ele é um adulto”, protesta a narradora do ótimo conto que dá nome ao livro, uma menina considerada “muito nova”.

Ela vive com a mãe, a avó, o avô, o tio e a irmã, pois o pai mora sozinho em outra cidade, depois de perder o empregado. Não que isso a incomode. Pelo contrário, já que os avós quase não lhe batem. Sua preocupação, de fato, está em defender o tio deficiente mental da chacota dos garotos da rua; com punhos, se for preciso. Por isso, desgosta que o avô a chame de “larvinha”, ainda uma notícia trágica irá lhe trazer a dimensão de sua miudeza. “Foi aí que eu entendi, entendi tudo (…) entendi, falei, sentei no chão e comecei a chorar mais forte, botei o dedo na boca”.

O que ela não entende é o motivo de a recriminarem ao falar alto “cu”. Da mesma forma que num conto antes, “Marimbondo”, a narradora um pouco maior não entende o que é a mancha vermelha que sujou sua calcinha ou “a coisa quente” que sai “da coisa” do Tio João, quando ele a obriga a pegar e balançá-la “pra cima e pra baixo”.

Ele é o moço que dirige a perua até a escola, onde algumas coleguinhas deixam “os meninos passarem a mão”. Ela, nunca. Num dia de calor, porém, antes de levá-la de volta para casa, o motorista para debaixo de uma árvore e ali, enquanto a menina desenha, um marimbondo pousa na sua coxa. “O Tio veio e botou a mão na minha coxa, apertou e falou que ainda bem que ele não tinha picado a minha perna; ia ficar uma marquinha e ia deixar feio, minha perna é tão bonita”, tranquiliza-se.

Verena recorre à fala do inocente, uma flexão que, por vezes, modula o tatibitate ou a imaginação, para explorar temas pesados como pedofilia. O uso do artifício amortecedor, no entanto, causa um efeito narrativo mais chocante, pois torna seus personagens vítimas ou resultados de uma maldade insuspeita. É o caso da protagonista de “Ralo”, uma menina branca que, sem saber, cultiva em si a semente do racismo.

“Um dia, a menina que mora aqui perto de casa tava andando com uma roupa marrom – e ela é preta -, aí a minha mãe pra ela que não podia, porque gente preta tem que parecer mais branca, tem que usar roupa amarela, roupa branca, senão fica tudo muito marrom, preto. E preto é feio, é cor escura, eu detesto preto, mamãe me ensinou que temos que detestar preto porque o branco é que é bonito. Se fosse bom, todo mundo ia ser preto, mas na verdade é quase todo mundo branco, não é verdade?”, questiona, não estando a par da gravidade da declaração.

A incapacidade de distinguir o que é moralmente certo ou errado, de não ter a plena noção das consequências dos próprios atos, cria volantes tomados por mãos adultas (e suas brutalidades, e suas imundícies, e suas depravações) ou por crianças originalmente más. Verena parece legitimar o pensamento de que a infância é a fase mais cruel da vida. No conto “Tijolo”, por exemplo, um menino oprimido pelo machismo do pai se vê obrigado a cometer um ato covarde, diante da possibilidade de espalharem que ele estava fazendo “troca-troca” com outro menino. Ao passo que, em “Berço” (um dos mais perturbadores), o abandono materno de uma bebê ocasiona o absurdo do incapaz responsável pelo incapaz; o que, obviamente, terá consequências sinistras.

Ninguém está a salvo, afinal. São como natimortos que, expelidos do útero, verbalizam uma existência-pária por meio do sêmen, do sangue, das fezes. Filhos da miséria social encarando numa poça suja o reflexo da miséria humana. “E se Deus existe, ele gosta é de arrombar o nosso rabo com a jeba grossa dele, foder a gente bem gostoso pra mostrar onde é que é o nosso lugar”, conclui o menino desesperançoso, de “Ratos”.

Verena, em sua estreia, consegue um feito raro: repetir a mesma matéria para a construção de seus personagens e, mesmo assim, estabelecer uma identidade bem definida para cada um. Suas narrativas, dessa forma, apresentam as características da história mental acentuadas pelos relatos introvertidos, de uma crueza impactante, uma realidade cotidiana atacada por pesadelos, por socos no estômago tomados por analgésicos. O interessante agora é descobrir aonde a força dessa literatura em formação irá chegar. Uma autora a se prestar atenção.

***

Livro: Larva

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Muito bom

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s