O autor como centro do mistério

O grande mistério de Esta terra selvagem está na segunda orelha. Ali vem escrito: “Isabel Moustakas nasceu em Campinas, São Paulo, em 1977. É formada em direito e vive na zona norte de São Paulo, com o marido e a enteada”.

Isabel assina como autora, mas desconfia-se de que seja uma invenção. Um pseudônimo adotado por um(a) jovem autor(a), ao se lançar num gênero distinto. Matérias foram feitas, a editora não nega nem confirma, chegou-se a elencar alguns suspeitos. Mas o que isso tem de relevância para a trama, afinal? É um jogo de adivinhação, cujo segredo sobre a verdadeira identidade do “culpado” é mais contagiante que o da própria história.

O romance tratado como de estreia não abriga, de fato, um enredo policial, detetivesco, e sim um drama mobilizado por investigações. A narrativa é conduzida por João, um repórter do Estadão às voltas com a cobertura sobre crimes de ódio que se proliferam pela São Paulo atual. Um grupo vem atacando e perpetrando atrocidades contra imigrantes, nordestinos, judeus, negros e homossexuais.

Marta é uma sobrevivente da gangue. Alguns meses depois de presenciar as mortes dos pais (um boliviano e uma italiana), ela lê um artigo escrito pelo repórter e decide quebrar o silêncio e rememorar os fatos. Diante de João, num tom impassivo, a jovem relata a invasão à sua casa (que muito se parece com a famosa cena de Laranja mecânica), e a sequência de torturas, estupro e assassinatos. Ato contínuo, vêm o seu sequestro e os abusos que sofreu no cativeiro, até ser abandonada num posto de gasolina, dias depois. Marta finaliza o relato, pega algo e se suicida.

Impulsionado pelo impacto da cena, o repórter sai à cata de pistas que, numa sucessão instigante de desdobramentos, vão se encaixando até revelar os culpados. Indivíduos-vetores de uma deformidade ideológica, selvagens urbanos que se reconhecem pelo uso de coturnos com cadarços verde-amarelo.

Moustakas vale-se de uma linguagem seca e extremamente crua para compor uma narrativa episódica. Apesar da elevada carga de violência e do grafismo das descrições, a autora não debanda para a afetação de sentimentos ou para o choque gratuito no leitor. O tom pesado se contextualiza aos fatos, que desnecessitam de explicações mirabolantes para acontecer, apenas acontecem. Trata-se aqui do horror presente, aquele que se enseja ao sair pela porta de casa, que estampa diariamente as páginas dos jornais, que a ficção, por mais que tente, nunca vai dar conta.

No entanto, não há dúvida de que o maior mérito é tocar em temas espinhosos sem levantar bandeiras ou tender para um senso de justiça. Por mais que estabeleça um contato estreito com a realidade, todos os personagens respondem unicamente à invenção. São feitos da mesma matéria que João, por exemplo, com seus traumas do passado, inconstâncias, enganos e interesses particulares. Moustakas deixa claro que pretende se manter em seu plano literário e não criar extensões para propagandas ou críticas sociais.

Com isso, nem mesmo a irresistível inclusão de uma reviravolta final (que, se o leitor tiver o mínimo de frequência nas histórias de crime, vai sacar fácil) compromete a fluidez da leitura, que segura o interesse do começo ao fim. Durante esse percurso, vale olhar com cuidado algumas colocações de frases, o estilo narrativo, a escolha de temas secundários e formar sua opinião sobre quem está por trás de Isabel Moustakas. Uma dica: repare nos agradecimentos.

Eu já tenho o meu suspeito. Um escritor que não é a primeira vez em que lida com terra.

***

Livro: Esta terra selvagem

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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3 comentários sobre “O autor como centro do mistério

  1. Oi Sergio. Tenho acompanhado, com parcimônia, as matérias sobre as especulações sobre Moustakas ser uma nova autora ou o pseudônimo de autor já conhecido(a).

    Você escreve “É um jogo de adivinhação, cujo segredo sobre a verdadeira identidade do “culpado” é mais contagiante que o da própria história.”.

    É um livro ruim? É menos contagiante, mesmo, do que descobrir se Moustakas é real, ou não?
    Se for, na minha opinião, é um livro ruim.
    Mas, pelo trecho que li no site da Companhia, me pareceu bom.

    Gostaria que explanasse mais sobre isto. Particularmente, o pequeno circo em torno da figura do autor, em detrimento de críticas mais aprofundadas sobre a obra, é algo que eu estou achando bem gratuito.

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    1. E me ocorreu outra coisa aqui, da qual não tiraria o valor. Pois não quero parecer tacanho em relação a estratégicas mercadológicas da indústria literária. Gosto delas, são necessárias para movimentar o mercado. Assim como gosto de bestsellers que vendam milhões de cópias, para custear apostas menos comerciais.

      Porém ocorreu-me que este seja um livro-acontecimento. Em que, menos que sua qualidade literária, o debate engendrado em torno da real identidade do autor seria a força para seu impulsionamento.

      Algo semelhante ao barulho em torno do livro de J.K. Rowling escrito sob pseudônimo.
      Ou, numa comparação de menor intensidade, da Paula Parisot (e seu “Gonzos e Parafusos”) naquela sua performance Big Brother, apadrinhada por Rubem Fonseca.

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      1. Vamos lá:
        Não é um livro ruim, como assinalado na avaliação (bom). Eu cito um aspecto e faço uma comparação. Neste caso, o lado misterioso da trama. “Neste aspecto”, o enigma sobre a autora ser real ou ser um pseudônimo se sobressai, pois (como coloco) não é um romance policial daqueles que puxam o leitor até o fim e, lá nas últimas linhas, revelam a identidade do assassino. É uma história de crime, urbana, tensa e bem contada. Se fosse uma série, seria um bom episódio, pois tem esse arco fechado mesmo. Já em relação à estratégia do “é ou não é”, eu acho super válida. Gosto, inclusive. Traz algo a mais pro livro, não se pode negar. Inclusive, não estaríamos aqui falando, caso isso não tivesse colocado uma pulga atrás das nossas orelhas. Dou todo o crédito à Cia das Letras por isso. Livro é produto. Tem de vender, serve para entreter também, como um sapato tem várias funções depois de calçado. Por mim, a editora não revela nunca quem é ou não é, e dá um gordo adiantamento pra “autora” escrever mais destes. É uma literatura que faz falta, a despretensiosa, que apenas quer ocupar uma parte do seu tempo e lhe envolver com um enredo bem contado, sem grandes pretensões. Divertir.

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