Retratos da vida do homem comum

Os contos de Finalmente hoje, do curitibano Marcio Renato dos Santos, são mobilizados por uma estranha transição de tempo.

Montada sobre seis segmentos, a breve coletânea problematiza as relações humanas em situações temerariamente comuns, tratando do presente quase passado, do passado mais que o passado, do futuro há pouquíssimo presente e de uma zona cinzenta atemporal.

Os personagens se aliam e se repelam por conta de ambições, de lembranças saudosas, de autoenganos, do sexo e, sobretudo, do compromisso de ser uma peça social que circula pelo tabuleiro do dia cumprindo sua função anódina. Quase não há camadas. Marcio trata da planificação do homem.

É o caso de “Pimenteira” e “Enviar uma carta”, que integram a primeira parte “Quase agora”. No primeiro conto, um homem atribui o sucesso de uma promoção profissional ao poder de tirar o mal-olhado de uma pimenteira; ao passo que a segunda narrativa acompanha o protagonista na tarefa mecânica de fazer uma postagem. Todas as possibilidades incidentais não são levadas em consideração. O propósito se limita à iminência do fato que, encarado como certo, instila o prazer da vitória na previsão e amortece o fracasso.

Mesmo na presença de subentendimentos, como em “Com açúcar, com afeto”, onde um segredo do passado está relacionado a misteriosos telefonemas, o autor é implacável ao ceder ao personagem apenas a tutela da suspeita. De certa forma, é como se propusesse que o passado não tem impacto sobre o futuro porque o que de fato importa é o presente, essa existência pálida, inalterável, medíocre.

Com isso, os interesses pessoais passam a ser uma faca para os relacionamentos. Que corta, a exemplo do jogo de intrigas e traições de “Feliciano é o meu senhor e nada me faltará”, e que serve para se autoflagelar, como visto nos contos “Vigília” e “Finalmente hoje”. As tensões provocadas pelo egoísmo vão se potencializando da baixa voltagem da impassividade diante da dor alheia (“O bom espírita”) ao comportamento mais grotesco impulsionado pela escatologia. “Ele sente o corpo relaxado e, então, o gás começa a sair: prrrrrrrrrrrrrrrrrrruuuum. – Que tesão!”, do conto “Simeticona”. Ali se concentra um humor que arranca um riso não de alegria, mas de nervoso, da falta de certeza do porquê há o riso.

Dando continuidade a sua marcante carreira de contista, Marcio compõe retratos da vida que, cobertos por um verniz ora caricatural ora satírico, dão a dimensão do quão complexo pode ser o que é encarado frivolamente como banalidade. Seguro em manter a unidade temática, a única exceção é justamente aquela em que volta a mira para si e seus pares. Em “É um táxi que chega inesperadamente”, o fazer literário e, por conseguinte, o escritor vão vistos no que há de mais ordinário, vulgar.

“Ah, nós, escritores, somos realmente uns privilegiados. (…) Com essa frase, é um táxi que chega inesperadamente, posso responder praticamente qualquer pergunta.Se me perguntarem o que é a vida?, respondo: é um táxi que chega inesperadamente. Posso usar pra definir o que é a morte, o amor ou a inspiração para escrever: é um táxi que chega inesperadamente. Maravilha! Vou anotar essa frase: é um táxi que chega inesperadamente. Numa dessas, uso pra finalizar algum texto, qualquer um. Ou coloco no título”.

Parece escárnio, mas, acredite, é a mais pura verdade.

***

Livro: Finalmente hoje

Editora: Tulipas Negras

Avaliação: Bom

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2 comentários sobre “Retratos da vida do homem comum

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