Ardis de um jogo de dois papéis

Ao escrever a obra-prima A volta do parafuso, o norte-americano Henry James certamente não trazia em si a ciência de que acabaria eclipsado pela magnitude de seu mais célebre romance.

O centenário de sua morte é uma oportunidade simbólica para se jogar luz sobre a instigante produção de um dos expoentes do realismo do século XIX, um autor completo que trafegou dos vários gêneros da ficção à crítica literária.

Reeditado com capricho pela Penalux, Os papéis de Aspern (tradução de Chico Lopes) dá a medida da literatura plurivalente de James, que conjuga com o erudito ao mesmo tempo que almeja ser popular.

Ao contrário do peso do terror psicológico que marca seu livro mais conhecido, a novela se infla de um composto de intrigas, ardis e doses de comicidade, desenrolando-se no exercício predileto do autor: compor um estudo interno de seus personagens e aplicá-lo no entendimento da história.

O narrador é um editor de livros obcecado pelo poeta norte-americano Jeffrey Aspern, que passou seus últimos anos na Europa. Convicto de que sabe tudo sobre seu ídolo, é surpreendido pela notícia da existência de papéis inéditos (cartas, poemas e afins) a respeito da vida do autor, que estariam em posse de Juliana Bordereau, uma centenária que foi musa de Aspern e, naquele momento, vive reclusa num casarão em Veneza.

Com a ajuda de uma amiga e de documentos falsos, ele convence Miss Tina, sobrinha da idosa, a alugar um quarto para sua estadia. O plano é se aproximar de Bordereau, a fim de extrair informações sobre o poeta, e, em último caso, roubar os papéis.

Ocorre que a convivência acarreta um câmbio de interesses: a senhora vê no editor um pretendente para casar a sobrinha, ainda que este apenas tenha olhos para seu objeto de desejo.

James parte de um argumento simples para tecer uma narrativa contagiante, cujo apelo folhetinesco carrega uma latência de malícia sexual, mesquinhez, avareza e crueldade.

As descrições luminosas sobre “a cidade das águas” se contrastam com o tom penumbroso do casarão, um ambiente que escurece à medida que as camadas psicológicas mais fundas dos personagens se revelam.

As artimanhas aparecem com sutileza nos diálogos, criando um jogo de verdades e mentiras que se espraia em pressuposições, que não deixa claro quem está manipulando quem.

Um livro, afinal, cujo parafuso dramático dá muitas voltas.

***

Livro: Os papéis de Aspern

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

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