Olhar pelo avesso do cartão-postal

Histórias de duas cidades passa em revista a Nova Iorque de hoje. A coletânea, organizada pelo norte-americano John Freeman, ex-editor da revista Granta, visita os cartões-postais da cidade, mas sobretudo as partes relegadas pelas agências de turismo.

São 27 autores que, por meio de crônicas, reportagens, memórias, colagens de jornais de época, contos e um poema, promovem um olhar múltiplo sobre “a cidade que nunca dorme”, cuja insônia reflete-se num panorama de contrastes econômicos e sociais. O centro de negócios do mundo, povoado por restaurantes chiques e modernos arranha-céus, “onde 1% da população ganha mais de 500 mil dólares por ano e 22 mil crianças não têm um lar”.

Essa escala da realidade à ficção retrata bem as características de um lugar onde o ordinário e o extraordinário se cruzam numa esquina.

É inacreditável se imaginar que há uma população inteira vivendo nos túneis do metrô, uma infinidade de tipos e de histórias de vida habitando a total escuridão, como descrito no relato do romancista irlandês Colum McCann. Ou aceitar como verídica a vida do imigrante indiano, provindo da mais cruel miséria, que se tornou rico e largou tudo para ser escritor, retratada pelo premiado biógrafo Edmund White.

Ensaios mais sóbrios dão conta de um dos grandes problemas atuais da cidade: o mercado imobiliário. O analista social DW Gibson mostra como a valorização de áreas notoriamente perigosas, como o Brooklyn, causam tensões entre inquilinos e proprietários inescrupulosos, derramando pelas ruas famílias inteiras que não têm como pagar por um teto.

“Quem faz uma coisa dessa com outras pessoas?”, indaga-se uma moradora. “Outros seres humanos?”.

Reflexões que põem em xeque o quanto a imagem exportada de um lugar é favorável a quem realmente o habita, as duas faces da moeda do mercado de turismo, do ideal do self-made man. A Nova Iorque de oportunidades, de muitas culturas e encantos, correndo lado a lado com o alarmante número de suicídios nas escolas, a luta dos mais pobres para a obtenção de serviços básicos e as sequelas irreversíveis do 11 de setembro.

No depoimento do romancista etíope Dinaw Mengestu, que se mudou em busca de melhor tratamento para o filho autista, está a tônica do debate sobre a cidade do capital e o direito à cidade: “Nova Iorque promete algo mais, alguma coisa melhor para quem pode pagá-la”.

Salvo as lamentáveis ausências dos textos de Zadie Smith, Valeria Luiselli e Lydia Davis, por questões contratuais, a coletânea serve para comprovar que toda grande cidade tem duas extensões: a total e a do turista. Para esse rutilam as partes simbólicas, fotogênicas, iluminadas, limpas. Todo o resto fica de fora do roteiro, longe dos olhos desacostumados com o avesso da paisagem.

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Livro: Histórias de duas cidades

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Bom

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