A toxicologia da maternidade

Distância de resgate é estupendo e certamente estará entre as cinco melhores leituras que você fará este ano.

Contudo, para o resenhista, o primeiro romance da argentina Samanta Schweblin é um dos mais auspiciosos. O que escrever, o que revelar da condução do enredo sem comprometer, o mínimo que seja, a experiência total do leitor?

É uma situação de risco latente, não há dúvida. Portanto, por mais que soe sofrivelmente lacônica, há aqui a opção deliberada de ser tangencial, de compor uma crítica que esteja à margem do plano narrativo por onde se irradiam os fatos, por onde caminha o leitor.

Amanda e sua filha Nina acabam de se mudar para uma casa num povoado rural. Poucos dias depois, conhecem Carla e seu filho David. Numa tarde de sol, estão num lago quando Carla começa a agir estranhamente. Amanda tenta entender o que está acontecendo, e Carla confessa uma história assombrosa relacionada ao seu filho e a um mal. Ponto. Acredite: o que menos se souber terá um impacto real no que vem a seguir.

A literatura de Schweblin ganhou escala com a coletânea de contos Pássaros na boca, cuja matéria era o insólito, infiltrações do fantástico que contaminavam uma prosa precisa, sóbria, convertendo o banal em circunstâncias perturbadoras, em incursões ao terror.

O mesmo expediente é aplicado no romance, porém com mais espaço para elevar a métrica de tensão e trabalhar o sobrenatural (o explícito e o velado) em variações que parecem combinar as essências de El juego de los niños, de Juan José Plans, e do conto “As fases de Severo”, de Julio Cortázar.

Há ainda, no eixo argumental, uma potência direcionada a dois subtextos: os transtornos da maternidade e o uso indiscriminado de agrotóxicos no campo. Sobre esse primeiro, sustenta-se o título. Para Amanda, “distância de resgate” é o espaço calculado entre ela e a filha, na proteção contra o perigo; uma espécie de lema sempre pronto a ser posto em prática. Quanto ao segundo, volto novamente a deixar a cargo do leitor desvendá-lo.

Fora dos limites da história, vale mencionar a qualidade do projeto gráfico, com super destaque para a capa belíssima que consegue, como em pouquíssimos casos, projetar um elemento fundamental da trama, sem deixá-lo óbvio. O único senão (ainda que comercialmente compreensível) fica por conta do apelo extraído de uma declaração do escritor Mario Vargas Llosa, em que chama a autora de “uma das vozes mais promissoras da literatura contemporânea em língua espanhola”.

Samanta Schweblin deixou de ser promessa há muito tempo. É hoje, sem dúvida, uma das imprescindíveis escritoras da sua geração.

***

Livro: Distância de resgate

Editora: Record

Avaliação: Excelente

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