Entre a criação e a encenação

Em Grito, o catarinense Godofredo de Oliveira Neto problematiza a relação entre realidade e fantasia, teatro e literatura, estreitando essas duas manifestações artísticas, a ponto de se tornarem uma só experiência humana.

O romance é conduzido pela voz trepidante de Eugênia, uma atriz octogenária que, embora aposentada, continua encontrando na arte uma maneira de ressignificar sua vida, de trazer a proscênio um passado de glória capaz de preservá-la da solidão e de outros males derivados da finitude.

Seu parceiro neste palco imaginado é Fausto, um jovem de 19 anos, vizinho de prédio. Aspirante a ator, ele se vale de histórias do seu cotidiano para compor e encenar pequenas peças no apartamento da ex-atriz.

Momentos que, segundo Eugênia, põem em forma a sua memória, resgatando obras e autores que transformam essas vivências num circuito de reciprocidade. Enquanto ele prefere extrair seus personagens do real, ela convoca, da ficção, a dramaturgia de Shakespeare, Machado de Assis e Vianninha. Assim, completam-se.

O caso é que, à medida que essa cumplicidade se cristaliza, os encontros transcendem a condição de mestre e aprendiz. Fausto vive atormentado pelo pesar da morte da irmã e por apuros diários, que a vizinha faz questão de investigar, com o uso da internet, e levar a cabo. A ela, aliás, desagrada qualquer outro relacionamento do jovem ator. “No fundo, ele só tem a mim como amiga e cúmplice da sua arte”, conclui. Dessa maneira, a paixão, inicialmente compartilhada pelo teatro, passa a se tornar carnal, um jogo de ciúme e de posse, com insinuações eróticas de ambos os lados.

Dividido em atos cênicos, o romance também propõe um jogo. Godofredo trabalha com a inconsistência, ao dar forma ao seu enredo através do relato de uma idosa que vagueia entre o fato e o delírio, que constantemente traz para esse plano referências literárias, trechos de livros que se emendam à tessitura original. Esse procedimento resulta numa composição sui generis, na qual a estrutura romanesca sofre intervenções de roteiros teatrais, de histórias que emergem na superfície da história principal, alcançando um enlevo estético e narrativo.

A construção dos personagem também tem origem na arte dramática. Se Eugênia é um resumo de suas lembranças e conhecimentos, Fausto traz traços alusivos de Dr. Fausto, de Thomas Mann, e, sobretudo, do Fausto, escrito por Goethe, aquele que faz um pacto com o diabo em troca de energia e técnica. A história, entretanto, avança sob a sombra de outra obra: Otelo, de Shakespeare. Aquilo que se executa em seu desfecho, simbolizado por uma frase pontual: “O amor é mera lasciva do sangue e simples complacência do desejo”.

Grito é um livro audacioso, que continua depois de sua última página, pois tem, em sim, indicações para muitos outros.

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Livro: Grito

Editora: Record

Avaliação: Bom

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