A loucura como liame fraternal

Arco de virar réu é sobre a deterioração em dois tempos, em dois estados.

A estreia do escritor e editor Antonio Cestaro no romance tem início na década de setenta, em pleno regime militar, quando o irmão mais novo do narrador-protagonista apresenta os primeiros sinais de desmoronamento mental.

Recém-abandonada pelo pai, a família tem de lidar com o agravamento dos sintomas e as dificuldades financeiras. Pedro internaliza um jogo de tabuleiro, com cavalarias, mapas e estratégias de guerra, passando a residir nessa fantasia de conflito, uma batalha imaginária.

O diagnóstico é esquizofrenia. Desse modo, entre períodos de internação hospitalar, em que inspira cuidado e controle em virtude da crescente violência, é transferido para a cidade bucólica de Barbacena. Ocorre que lá Pedro acaba suspeito do desaparecimento de um jovem acampado nas cercanias.

Essa sucessão de eventos é acompanhada de perto pelo narrador que, ao relatar o drama do irmão, relata a própria história, a história familiar. O pai ausente, que construiu outra vida; a mãe, um vetor de fragilidade e resistência; a irmã artista descompensada daquele ambiente.

Ele se tornou historiador social, com interesse pelo estudo dos povos indígenas no período da colonização, em especial os costumes e os rituais antropofágicos dos tupinambás, que habitavam o litoral da região sudeste do Brasil. O tônus do seu trabalho inclui pesquisa de campo e análise de registros da época, a exemplo dos manuscritos do navegador alemão Hans Staden e das gravuras de Jean-Baptiste Debret.

Convidado a palestrar sobre a usança da tribo, o narrador se dá conta, num momento em que responde perguntas sobre crenças e práticas de canibalismo, de que existe uma estreita ligação entre a observação antropológica das sociedades primitivas e a retórica desconexa do irmão.

“Palavras como pele, carne, sangue e outras tantas focadas em aspectos físicos de supostos inimigos estavam sempre presentes, algumas vezes dissimuladas, noutras frontalmente, com caráter quase sempre chocante. Lembrei-me de quando ele respondeu à pergunta que fiz sobre a sua resistência em se alimentar de forma adequada, com aquele pensamento em tom de segredo que ficaria guardado nas minhas mais remotas gavetas de memória. (…) Estaria eu entrando num jogo imaginário cujas regras minha própria mente forjaria para dar sentido ao que fosse de natureza supostamente equivalente? Ou estaria na iminência de associar comportamentos que dividem o mesmo espaço no mais primitivo recôncavo da consciência?”

A busca por tais respostas vai pressionando-o contra o sentido de normalidade. A todo custo, intenta decifrar os elementos recorrentes na verborragia de Pedro para sustentar sua obsessão e, pouco a pouco, vai sendo envolvido pelos filamentos viscosos da demência.

Primeiro, são os pesadelos, em seguida começa a ouvir vozes. Carolina, a esposa, não é mais encontrada. Sente atração por ossadas, passa a se dedicar à ocultação de cadáveres. Até que, tal qual o irmão, mas em tempo distinto, percebe-se em plena deterioração física e mental. “Sou um pacote de incertezas transitando entre o subconsciente e uma realidade que, para ser razoável, não tenho clareza se é tão real”, define-se, enquanto ainda pode.

Cestaro urde, com habilidade, uma narrativa não-linear, com saltos temporais e visível preocupação com a força da linguagem, do valor estético ao apuro com as palavras. O avanço no estado de loucura do narrador acontece no curso de uma intensidade labiríntica que, a certa altura, põe em dúvida se os fatos e os personagens apresentados são reais ou produtos de delírios, se o próprio protagonista existe. O único porém fica por conta de uma perda de ritmo no final.

Contudo, nada que desabone a qualidade de um romance fortuitamente incomum e convincente, que dialoga, em muitos aspectos, com Nove noites, de Bernardo Carvalho, e Quarup, de Antônio Callado. Em Arco de virar réu, há o melhor de ambos, sem comprometer a originalidade.

***

Livro: Arco de virar réu

Editora: Tordesilhas

Avaliação: Bom

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