De quando o sangue era frio

Em 1959, o escritor norte-americano Truman Capote folheava o New York Times, quando viu uma nota sobre o brutal assassinato de uma família numa cidadezinha do Kansas. Na hora, ele anteviu que ali havia material para um livro baseado no crime e no impacto deste na comunidade.

O resultado foi A sangue frio, considerado o melhor texto da literatura e da reportagem americana do século XX, que inaugurou o gênero de “romance de não-ficção” e o chamado New Journalism, o jornalismo literário.

No prefácio da edição lançada pela Cia das Letras, o jornalista Ivan Lessa descreve uma passagem em que Gore Vidal, Norman Mailer e Capote discutiam num sarau literário, quando este último, sem qualquer traço de modéstia, disparou:

“Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não”.

Mas será que Capote já tinha essa ciência, ao bater os olhos no jornal, ou a petulância é fruto do reconhecimento? Alguém capaz de edificar um monumento do seu tempo, um divisor de águas, traz em sua origem toda a capacidade transformadora?

No caso do autor de A sangue frio, uma prova categórica está em Primeiros contos de Truman Capote, lançada recentemente pela José Olympio.

A coletânea traz 14 narrativas até então inéditas, escritas pelo norte-americano durante sua mocidade. A despeito de um estilo próprio ainda latente, em formação, os textos apresentam a agudeza do olhar capaz de descrever cenas com impressionante magnetismo, que viria a ser um dos componentes mais marcantes de sua exuberante carreira.

Criado no meio rural, o jovem Capote configura seus contos desse ambiente de geografia desoladora, por onde perambulam tipos sem alma, solitários “exatamente como certas pessoas nascem cegas ou surdas”.

Foragidos da lei, crianças amadurecidas por traumas, forasteiros da própria existência e vítimas de um ranço escravocrata formam esse painel que, de um jeito incrível, consegue refletir a realidade de uma parte marginalizada do país.

Essa primeira ficção ainda demonstra uma capacidade, em pleno florescimento, de utilizar recursos do jornalismo em prol da imaginação. Técnica que iria lhe consagrar, anos mais tarde, um dos ícones da cultura contemporânea.

“Um dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara por toda a vida a um senhor nobre porém implacável. Quando Deus lhe dá um dom, ele também lhe dá um chicote; e o chicote se destina apenas à autoflagelação… Estou aqui sozinho na escuridão de minha loucura, sozinho com meu baralho – e, é claro, o chicote que Deus me deu”, declarou Capote, emblemático.

Primeiros contos… é parte do punho desse chicote.

***

Livro: Primeiros contos de Truman Capote

Editora: José Olympio

Avaliação: Muito bom

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