O sexo e outros vazios modernos

Os autores contemporâneos brasileiros, em franca maioria, enxergam nas mídias sociais um meio producente para divulgarem os produtos de suas rotinas. Porém é possível contar nos dedos de uma mão aqueles que transportam tais plataformas para suas tramas, atribuindo a estas contornos tão significativos quanto os de seus personagens.

Um raro exemplo de sucesso pertence a escritora Helena Terra e seu romance de estreia, A condição indestrutível de ter sido. Na trama, uma mulher cria um blogue coletivo e, de pronto, enamora-se por um dos participantes. Vidrada à tela do computador, ela vai desenvolvendo um liame a esse perfil masculino apoiada em comentários e elogios, no poder fantasioso das palavras dirigidas.

Seu cotidiano, então, passa a ser gerido pelo domínio virtual, pela necessidade incontrolável de alimentar a intimidade desse relacionamento abstrato. Um circuito de autoenganos que desvelará os vazios do individuo moderno, o quanto a conexão possível pela tecnologia é capaz de desnaturar os sentimentos. Efeito que agora é reprisado com mesmo impacto pelo escritor carioca Alex Andrade, em Amores, truques e outras versões.

Do blogue, temos um aplicativo de celular que proporciona encontros casuais. Basta ligar o dispositivo e verificar se há alguma pessoa interessada (e interessante) nas cercanias, bater um papo e selar o momento com uma transa descompromissada. A esse propósito plural filia-se o narrador da primeira parte, “Truques”: saciar um vício físico subordinado a um mecanismo virtual.

“O mundo real é mais ou menos isso e o virtual é completamente tudo isso”, constata. “Sou escravo dos meus desejos e dependente da vida tecnológica”.

Desinteressado por altos saltos profissionais, passa o dia a inspecionar fotos de rostos convidativos e corpos torneados em busca de prazeres, um tipo de caçada na qual a perseguição não distingue quem é o predador e a presa. Nessa selva de vontades fugazes, o que foge dos planos é logo compensado por um novo alvo ao alcance do GPS. Nem sequer precisa-se de nome. Qualquer nome vale ou nenhum. Um circuito de parceiros, na qual a bagagem de vivências não suporta a voltagem da libido, o poder de confinar o presente no perímetro da cama.

Afinal, “todo mundo vive das suas histórias, inventadas, compostas, vividas, recriadas, sonhadas”. O incógnito é também um fetiche. A vida surge feito uma cápsula que guarda um gozo. Apenas.

Andrade mira com holofotes o retrato do homem-pedestre do terceiro milênio, aquele que transita pelas ruas preenchendo e direcionando seus dias por obrigações e lazeres virtuais, que se entrega de corpo e alma a qualquer habitante da face interna do monitor de um aparelho eletrônico. Desse modo, o autor atinge uma frequência que, do fluxo verbal do seu narrador, sintoniza uma qualidade ensaística, a ficção que se descortina para crítica ao consumismo, aos valores superficiais, aos atores de um teatro de vampiros que tentam ocupar a cavidade de emoções com sensações vulgares.

Como bem define o escritor e crítico literário Ronaldo Cagiano, no posfácio do livro, personagens que “são a marca do nosso tempo, regida pela solidão individual e pelo egocentrismo, que culminam na insularidade psicológica do ser em um permanente sentimento de apartheid afetivo”.

Isso fica evidente na segunda parte, intitulada “Outras versões”, que dá voz aos homens que se relacionaram com o personagem que conduzia a história no capítulo anterior.

O autor transfere o foco de observação e, a partir dessa polifonia, cria uma série de simulacros, agentes de uma rede de mentiras, veleidades; pais de família que mentem para suas esposas a fim de se deitarem com homens mais jovens, perfis montados com fotos falsas a servir de iscas, adictos em hiperestesia. Detentor de uma linguagem coloquial e ágil, Andrade consegue diferenciar cada um desses sujeitos por meio de suas intenções, conformando um microcosmo que, na terceira e última parte, será atacado por um mundo de mil dentes.

Em “Amores”, a trama volta a se centrar no narrador inicial, agora decidido a não acionar o aplicativo do celular, checar suas mensagens. Não consegue. De modo que passa a seguir o sinal de um cara, adentrando numa praça onde acabará topando com uma mulher, cuja rotina, embora parecida com a dele, guarda um sentido aniquilador

A existência nas mídias sociais, protegida por cenários polidos pelo Photoshop, nos quais todos são sadios e fotogênicos, contrasta-se com a miséria humana impossível de se ignorar, o cotidiano das grandes cidades que devora a tudo com sua fome pela degradação, pela ânsia em colecionar perdas. A tecnologia revela-se, portanto, o que é: uma fuga. Constatação muito bem substanciada no ensaio Curtir é covardia, do premiado escritor estadunidense Jonathan Franzen.

“Os produtos tecnológicos de consumo nunca fariam algo tão pouco atraente, pois não são pessoas. Eles são, no entanto, grandes aliados e facilitadores do narcisismo. Além da ansiedade de serem curtidos já incorporada a eles, há também uma ansiedade de causarem boa impressão em nós. (…) E, já que nossa tecnologia não passa de uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar seus traços manipuladores como faríamos no caso de pessoas reais. Trata-se de um ciclo interminável. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la na sua lista particular de espelhos elogiosos”.

E complementa: “Talvez eu esteja exagerando um pouco neste caso, só um pouco”.

Talvez, meu caro Franzen. Porém desmedir a realidade é, de maneira indelével, fazê-la continuar pelo terreno da ficção, ainda que nos seja insensível essa rompedura de limites. Não seria o homem moderno um fronteiriço dos mundos real e virtual? Andrade nos prova que sim, e o faz com maiúscula destreza ao tornar as páginas de seu livro em lâminas de espelho.

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Livro: Amores, truques e outras versões

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Muito bom

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