Reflexões de um cronista tardio

Uma boa maneira de se ler A máquina de caminhar, de Cristovão Tezza, é do fim para o começo. Pois está justamente no último texto a essência do ofício que constitui a coletânea de crônicas e como o escritor curitibano chegou a esse ofício.

“Um discurso contra o autor” é, duplamente, um relato das circunstâncias e motivações que levaram Tezza a assinar, durante seis anos, uma coluna semanal na Gazeta do Povo, e um fabuloso ensaio sobre as especialidades da crônica, escorado em dois textos de Machado de Assis que sinalizam a orientação dos olhares que atribuíram ao gênero um traço particularmente brasileiro.

“A crônica é em essência uma maldita conversa pública em voz alta. (…) Mais do que em qualquer outra parte, tudo se discute na crônica: religião, gosto, política.”, observa o autor, prenunciando o expediente que ele próprio iria utilizar para a concepção dos seus textos.

Ao todo, são 64 crônicas originalmente publicadas entre 2010 e 2014, que trazem comentários diversificados em assuntos e profundidades analíticas. Da paixão pelo Atlético Paranaense aos relatos de viagem, da reflexão sobre a preguiça ao uso do GPS, a coletânea, que se conclui com o inédito ensaio supracitado, não apresenta uma unidade explícita, mas atinge um estado semelhante com o uso producente de um recurso.

Toda ideia de se lançar uma seleta de crônicas outrora publicadas é uma tentativa de eternizar algo cujo propósito inicial era ser imediato. Neste caso, mais que o talento do cronista, vale a argúcia do organizador em criar um artifício que varra a poeira da moldura do tempo.

Na máquina de Tezza, esse resultado é obtido através da ordenação de elementos conectores. O belo trabalho de seleção de Christian Schwartz, que também assina a apresentação, estabelece um fio condutor que se completa no decorrer da leitura. Seja na parecença dos temas ou na repetição de palavras, a sensação de sintonia só é desfeita quando se descobre, no fim da página, que há a distância de anos entre um texto e outro.

Isso, contudo, não contribui para instalar um equilíbrio na coletânea. Ainda que em menor frequência, algumas crônicas partem de observações triviais e não avançam muito além da superfície. Não são ruins, mas caracterizam a irregularidade. De fato, os textos mais luminosos são aqueles em que o premiado escritor usa como matéria a literatura.

É o caso do autoexplicativo “O que está acontecendo com a literatura brasileira”, que faz um retrato lúcido dos nossos tempos, e imortaliza uma das mais sensíveis frases sobre o processo criativo: “Porque escrever não é um meio para chegar em algum lugar, mas a própria construção do lugar, na proporção de um tijolo por palavra, dizendo com simplicidade”.

Tezza rememora que estreou tardiamente na crônica, aos 50 anos, “praticamente cru”, não sendo sequer “alguém apaixonado pelo gênero”. A coletânea, no entanto, demonstra que o autor soube bem adaptar o fino da escrita ao exercício de reflexão no qual “a falta de assunto é o filé-mignon” e, sobretudo, ao desafio de afunilar a linguagem e concentrar a ideia em 2.800 caracteres. Nesse aspecto, ele sai vitorioso.

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Livro: A máquina de caminhar

Editora: Record

Avaliação: Regular

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