Experimentalismo ao redor do conto

Um dos acertos de Os doentes em torno da caixa de Mesmer, de Léo Tavares, está no achado do título. Inusitado e instigante, este não vem repetido de nenhum dos contos ou aparece em qualquer linha da coletânea de estreia do autor gaúcho. Sua força não está na presença, e sim na natureza do seu significado, na representação particular que mobiliza todas as narrativas para um desígnio comum.

A tal caixa, criada pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer, data a Europa do século XVIII. Preenchida com água, limalha de ferro e vidro moído, era coberta por uma tampa perfurada de onde saíam barras de ferro que funcionavam como ímãs. A ideia era que o magnetismo tivesse o poder de sarar enfermidades. Assim, ao redor do artefato, aglomeravam-se hordas de doentes na esperança da cura.

Com a mesma intensidade, os personagens de Tavares estão em busca de salvação. À beira de abismos pessoais, intentam o último recurso imaterial capaz de deter a queda, um ajuste consigo ou com um outro distante ou inexistente, um encontro fantasmal.

Vencedora do Concurso Contista Estreante, da FestiPoa Literária, a coletânea é repartida em três seções: “Dentro de um feixe de sol”, “Pequenos olhos sujos” e “O fundo do rio”. Ainda que distintos em seus motores temáticos, os conjuntos de contos que integram cada uma delas se equivalem no aspecto da estrutura. Têm a conformação de pequenas cenas, às vezes instantâneos, recortes de tempos sem começo e fim.

A escolha pela narrativa de curta duração, no entanto, não se reflete na linguagem e, tampouco, no conteúdo. O autor encontra matéria para seus textos nas mais variadas fontes: das artes plásticas à música erudita, da história universal à literatura, do fantástico ao etéreo.

Esses últimos elementos são recorrentes na primeira e na terceira parte, delineadas por uma linguagem mais experimental, meio de sonho, meio de devaneio, que prende a realidade a circuito ativo de abstrações, criando uma inter-relação entre o concreto e o subjetivo. Tal efeito traz dimensão para os contos, que flertam com a concepção romanesca e sugerem prolongamentos além de seus desfechos.

Já a segunda parte se espelha num modelo narrativo mais convencional, usando as relações afetivas e familiares para acessar um passado marcado por medos pueris e culpas adultas. São histórias que não carecem de conexões fora de seus limites internos. Os personagens têm de lidar com a paisagem e os objetos ao redor, e isso já é um desafio dos mais insidiosos, um jogo de xadrez contra um duplo de si.

De maneira geral, Os doentes em torno da caixa de Mesmer não apresenta uma coesão, mas um autor coeso em suas escolhas e no desenvolvimento destas. Tavares demostra, em seu debute nas narrativas curtas, que tem fôlego para inspirações mais longas.

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Livro: Os doentes em torno da caixa de Mesmer

Editora: Modelo de Nuvem

Avaliação: Bom

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