O dia em que o poeta finalmente falou

Foca é o repórter sem prática de redação, ainda verde, que, conforme o animal, vive metendo o focinho onde não é chamado. Para este, são passadas as pautas e as tarefas mais ordinárias, aquelas à altura de suas inaptidões. Dificilmente se verá um foca à frente de uma grande reportagem. De um furo jornalístico, então, quase impossível.

Esse, portanto, é, de cara, o primeiro atrativo de O poeta e a foca, da paulista Nanete Neves. No livro-reportagem (ou livro de memórias), a jornalista relata como conseguiu, recém-saída do estágio, entrevistar ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade. Já septuagenário, o poeta mineiro mantinha a postura de nunca falar com a imprensa. O que era um tanto incoerente, já que ele mesmo atuou, durante alguns anos, como jornalista.

Nanete volta no tempo (no seu tempo e no de Drummond), traçando uma linha cronológica de fatos, intuições e acasos que coadunaram para a realização do feito considerado inimaginável, que ressoou na imprensa de todo o Brasil. E aí está o segundo componente de fascínio do livro. A narrativa não se detém à entrevista, mas refaz os bastidores do trabalho jornalístico que possibilitou que esta acontecesse. A autora consegue dosar muito bem material biográfico com contextos próprios da profissão, e ainda infundir no texto um clima de suspense, de tino investigativo.

À época, estabelecido um dos mais influentes escritores da língua portuguesa, Drummond residia no Rio de Janeiro. Nanete, uma jovem nascida no bairro paulistano da Mooca, trabalhava no Shopping News, jornal semanal, com distribuição gratuita. Por conta da chegada do aniversário de 75 anos do poeta, entrou na pauta uma matéria para registrar a data simbólica. Através de um sorteio, a “foquinha” viajou de avião (pela primeira vez) para a Cidade Maravilhosa, com a incumbência de produzir, em cinco dias, conteúdo para uma edição especial.

É preciso mencionar que era o ano de 1977, quando não existia celular e internet era coisa de ficção científica. Assim, a jornalista foi se valendo da obstinação e, sobretudo, da audácia para costurar, numa série de telefonemas e encontros, uma rede de contatos que a conduzisse até o prédio de Drummond, em Copacabana. Essas pequenas entrevistas que precedem a principal são preciosidades à parte. Ali estão intelectuais do quilate de Antônio Houaiss, Nélida Piñon, Antônio Callado, Pedro Nava e Affonso Romano de Sant’Anna.

As ajudas, no entanto, cairiam por terra, caso não existisse o atrevimento da foca que, com uma folha de papel e uma ligação telefônica, obtivera êxito na mais inacreditável das tarefas. Ao rememorar o seu sucesso, Nanete toca em fundamentos da profissão, mas, de fato, traz a lume aspectos pouco conhecidos da personalidade de um escritor que, por muitos anos, escondeu-se atrás do monumento da sua obra.

Revelando Drummond, o homem, é como se a autora conjurasse uma estrofe de “Procura da poesia”, contido no magistral A rosa do povo, para mostrar que, contra o silêncio, bastava a medida certa de intempestividade: “Chega mais perto e contempla as palavras./Cada uma/tem mil faces secretas sob a face neutra/e te pergunta, sem interesse pela resposta,/pobre ou terrível, que lhe deres:/Trouxeste a chave?”.

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Livro: O poeta e a foca

Editora: Pasavento

Avaliação: Bom

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