Contundências do universo feminino

O universo feminino endereça os contos de Antes que seque, coletânea da jornalista carioca Marta Barcellos, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2015.

De maneira latente ou explícita, todas as personagens têm de lidar com seus desejos e angústias em ocasiões onde a presença masculina é sempre equivocada, negligente.

Marta tem uma prosa ágil e contemporânea mas carregada de subentendimentos, de conotações sobre as relações entre os sexos (inclusive no próprio título).

Há muito dito no periférico, no que parece secundário dentro do plano narrativo, como visto em “Planta circular”, que abre o livro, no qual uma mulher se esforça para vender as qualidades de seu apartamento em meio à imobilidade do restante da família.

“Podem entrar, fiquem à vontade. Esse é o meu marido vendo o futebolzinho de domingo dele. Não reparem, a família está toda em casa”.

Outro elemento condicionante é a tecnologia. Às vezes como uma válvula de escape, outras como espelho, o mundo virtual oferece uma alternativa para se relacionar com a realidade e dispersar as frustrações num tipo de compensação ilusória.

É o caso da personagem do conto “Não podia desperdiçar”, que se divide entre um plano para engravidar e a necessidade de relatar essa rotina de esperança e de decepção numa página pessoal. Indaga o marido: “Você vai continuar falando do tratamento com todo mundo no blog?”. Resposta: “Ran-ran – E Ana Paula conseguiu não falar mais nada”.

Entretanto extravasar nem sempre é possível, e muitas carregam no mais fundo de si as dores de um passado de opressão e de um presente de menosprezo.

“Meus netos só prestam atenção em mim se for para fazer piada, porque me tornei uma espécie de personagem caricata na família. Foi a forma que eles encontraram de conviver comigo. Eles nem sonham que tenho consciência dessas coisas, mas ter consciência é outro segredo”, narra a voz alquebrada que conduz “Questão de preferência”.

Marta ainda busca incutir em seu texto doses de denúncia, porém sem bandeiras em riste ou exacerbação de vozes. A submissão feminina é descortinada em gestos prosaicos, no acúmulo de fazeres em que a normalidade parece atuar.

“Porque chega um dia, quem podia imaginar, em que a mulher não é mais protagonista da própria vida”, dar-se conta (tardiamente) a personagem do cortante “Dia de mulher”.

De fato, Antes que seque é mobilizado por uma sutileza contundente que requer um leitor atento, disposto a vasculhar todos os detalhes. Mérito da autora que alcança a potência da unidade temática num trabalho de precisão minimalista.

***

Livro: Antes que seque

Editora: Record

Avaliação: Bom

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