Os últimos dias do poeta maldito

O regresso, de Lúcia Bettencourt, traz sua motivação no subtítulo: “A última viagem de Rimbaud”. Num tipo instigante de biografia romanceada, a premiada autora carioca remonta os dias derradeiros do poeta francês, a volta da África à França para se tratar de um câncer ósseo na perna.

Em capítulos curtos, que alternam narradores em primeira e terceira pessoa, a construção textual se dá num encaixe entre realidade e invenção. Ora o próprio Rimbaud revive as desventuras da sua viagem num relato que se configura o de um diário de memórias, ora um leitor da atualidade reconstitui a história deste artista seminal, através de momentos que dão a medida da intensidade com que vivia, num circuito de paixões e outras drogas.

Dessa tessitura não linear, saltam aos olhos o trabalho meticuloso de pesquisa histórica e o apuro ficcional que, muito bem associados, não só conformam uma época, com riqueza de detalhes, mas também o personagem central em seu caráter humano e artístico.

São escassos e desencontrados os registros que se têm de Rimbaud, portanto Lúcia se utiliza de uma potência criativa para extrair, dos fatos e da obra poética, matéria-prima para moldar aspectos físicos e subjetivos de um homem impulsivo, desbragado, altaneiro e, acima de tudo, genial.

Desse modo, a poesia acaba por contaminar a própria prosa, recriando, com delicadeza e sensibilidade, as angústias do poeta, em especial as suas relações familiares – a desarmonia com a mãe, a ausência do pai, a perda da irmã pequena, o amor contido da outra irmã, Isabelle (que, em algumas partes do livro, tem voz ativa) – e a estadia sofrida no hospital francês onde teve a perna amputada.

Nos relatos em terceira pessoa, o foco acaba por ser o relacionamento tempestuoso com o poeta simbolista Paul Verlaine, que acolheu o jovem Rimbaud em sua casa e acabou por abandonar esposa e filho por conta de uma paixão fulminante, regada a absinto e haxixe, levando-o à loucura e à cadeia, depois de uma tentativa de homicídio.

Lúcia ainda estabelece uma segunda camada interpretativa ao aproximar a travessia final do “poeta maldito” ao mito de Odisseu. A Europa seria a sua Ítaca, porém, ao contrário do herói grego, o destino não iria lhe reservar o triunfo da paz; ao menos que a morte seja encarada como a paz eterna.

Rimbaud teve um enterro sem a altura do seu valor artístico, com o caixão acompanhado apenas pela mãe e por Isabelle. Um equívoco que a história sabiamente tratou de reparar e que, agora, o formidável O regresso joga luz sobre.

***

Livro: O regresso – A última viagem de Rimbaud

Editora: Rocco

Avaliação: Muito bom

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