Crônica de uma busca inalcançável

Linha verde, de Vinicius Galera, decorre da mesma lavra que As fantasias eletivas, de Carlos Henrique Schroeder; Não muito, de Bolívar Torres; e Loja de conveniências, de Guilherme Smee. Breves romances protagonizados por jovens adultos que não sabem qual rumo dar a vida, cujas inquietações implicam num tipo de paralisia com ares de derrotismo.

No contrafluxo desse abatimento, há a intervenção de um personagem secundário que descortina o mundo e oferece a que se apegar: o reparo de um erro, a descoberta do amor, a reconstituição do retrato familiar, o pacto de amizade, o descompasso do sexo.

O livro de estreia de Galera se estreita a todas essas motivações, contudo nenhuma delas move de fato seu eixo. O enredo se desenvolve na busca por uma literatura que, simultaneamente, alimenta a ficção e o fazer narrativo. É o combustível e o veículo, é o que tensiona e torce a tessitura.

Ivan, um jornalista recém-formado do interior paulista, inicia sua carreira assinando uma coluna literária num diário local. Afora não ser remunerado por isso, há um descontentamento com o que escreve.

Resolve, então, recorrer à saída financeira de um concurso público, porém ainda não é isso o que quer. Ele quer (ou acredita que sim) escrever ficção: roteiros, contos, romances, e “ganhar pelo que faz”.

Muda-se para a cidade de São Paulo, onde se hospeda, por um tempo, na casa de um amigo de faculdade. Passa os primeiros dias perambulando por bares e bibliotecas, frequentando eventos e sessões de cinema.

A grana curta, no entanto, não tarda a criar um abismo entre suas expectativas e a realidade, levando-o novamente a bater de porta em porta, com um currículo em punho, atrás de emprego.

Consegue, enfim, uma vaga num canal de tevê. Ali, embora reconheçam a qualidade do seu texto, descobre que não é lugar para literatura, que, “às vezes, os livros são inimigos do que fazem”. Mesmo assim consegue se firmar e estabelecer um novo circuito de relações, algumas evoluindo para laços mais afetivos, distendidos pelo sexo.

O caso é que Ivan não avança além da superfície, da aparência, da ideia de escrever algo. Suas atitudes são pautadas em hesitações; “a vida é vaga”, ele mesmo sentencia. É como tivesse se esquecido de tirar uma trava, como se houvesse uma âncora dentro de si.

Natural do interior de São Paulo e também jornalista, Galera parece emprestar algumas de suas percepções (e talvez experiências) da profissão ao seu protagonista, o que o torna demasiadamente crível e angustiante.

A prosa fluída e de ritmo comedido, que ressoa a inflexão da crônica, coloca o leitor no banco de testemunha desse recorte de tempo, das desventuras cotidianas do narrador em seu processo de formação.

Não há nada de extraordinário e é exatamente isso que perturba. Os dias que engolem os outros sem propósito, o cansaço da monotonia, a apatia de se dar conta de que a vida é a repetição dos atos, o mais do mesmo.

Linha verde trata do homem que não consegue se reconhecer em lugar nenhum, que é estrangeiro de sua própria existência.

***

Livro: Linha verde

Editora: Pasavento

Avaliação: Bom

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